Um novo espaço teatral para “Sarabanda”

Peça que estreou na Mostra Ingmar Bergman, em 2014, faz curta temporada no Grande Teatro do Sesc Palladium

iG Minas Gerais | Luciana Romagnolli |

Incestuoso. Marina Viana como Karen, a filha de Henrique, interpretado por Romulo Braga
Ricardo Portilho/ Divulgação
Incestuoso. Marina Viana como Karen, a filha de Henrique, interpretado por Romulo Braga

Quem viu o Grande Teatro do Palácio das Artes ser ocupado horizontal e verticalmente por “Sarabanda” durante a Mostra Ingmar Bergman, em 2014, pode imaginar o que os diretores Grace Passô e Ricardo Alves Jr. planejam para a nova temporada do espetáculo neste final de semana no Grande Teatro do Sesc Palladium. Mas há novidades – algumas mantidas em segredo para surpreender o público.

Fato é que o espetáculo se faz como uma ocupação, tomando novas formas de acordo com o lugar que o sedia. “Em cada teatro é uma nova leitura do espaço, uma relação com outras potências ali”, observa Alves Jr.. No caso do Palladium, o passado como sala de cinema não foi ignorado na remontagem de uma peça justamente adaptada de um filme – o derradeiro de Ingmar Bergman. A inversão de colocar o espectador no palco abre-se às possibilidades não só do prédio teatral, mas da sala de projeção.

Outra mudança significativa é a entrada da atriz Glaucia Vandeveld no papel de Mariana (antes representada por Rita Clemente). “É lindo ver como atrizes e atores vão se apropriando do papel e revendo características dos personagens”, comenta o diretor. Para ele, Glaucia imprimiu ternura à relação de Mariana com João (Gustavo Werneck), além de uma compreensão da passagem do tempo. “Faz lembrar a Liv Ulmmann no ‘Saraband’. Apesar dos momentos difíceis pelos quais Mariana e João passaram, existe algo de intimidade daquele casal que ela trouxe, e criou uma nova relação na peça”, conta.

Mariana é quem conta a história de seu reencontro com o ex-marido, décadas depois, diretamente para o público – num tom afetuoso dado por Glaucia Vandeveld. “No filme, ela olha para a câmera, o que é cortar essa quarta parede, como no teatro é muito usado”, comenta o diretor.

As relações entre as duas artes são fortemente trabalhadas no espetáculo – cabe lembrar que Ricardo Alves Jr. atua nos dois campos, tendo criado filmes como “Permanências” e “Tremor”. “No Palácio, a gente trabalhava com duas telas, aqui será uma só. A cada montagem, a forma de juntar as duas linguagens é um desafio. A gente propõe que o ato de fazer aquela imagem gravada aconteça ali, ao vivo. É tentar inserir o cinema nesse ato de fazer o aqui e agora”, diz.

Desse modo, juntam-se duas percepções distintas: “a ideia do cinema ser uma imagem projetada, uma fantasmagoria, e o teatro ser a presença do ator. Numa encenação contemporânea, essas duas linguagens dialogam muito bem quando fazem disso um acontecimento único, não uma de cada lado”, opina Alves Jr.

Apesar da familiaridade do diretor com a sétima arte, ele conta que o cinema não entrou no projeto a priori. Veio de uma necessidade sentida como própria da obra de Bergman: o primeiro plano (enquadramento no rosto do ator), impossível no teatro.

Família. Já nas apresentações no Palácio das Artes, uma diferença notável em relação à obra original era a intensidade dos personagens de Henrique (Romulo Braga), filho de João, e sua filha Karen (Marina Viana). Alves Jr. conta que, a primeira vez que viu o filme, custou para entender que o homem e a mulher deitados na mesma cama eram pai e filha. “Eu achava que essa relação conduz todo o caráter e as questões da Karen, então na peça isso fica evidente. Sinto, talvez, como é o último filme do Bergman, que no cinema a gente fique muito encantado com o reencontro do casal (Mariana e João), e o Henrique e a Karen fiquem como coadjuvantes. Mas, quando se lê o texto, não são coadjuvantes, é uma relação de quatro”.

Serviço: “Sarabanda”, 6ª e sáb., às 18h e 21h, e dom., às 17h30 e 20h, no Grande Teatro do Sesc Palladium (rua Rio de janeiro, 1.046). R$ 16

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