Registro de um olhar tropical

Christian Cravo lança livro que traz material produzido pelo fotógrafo nos anos 90, quando tinha entre 17 e 19 anos

iG Minas Gerais |

Dinamarca. Imagens de Christian Cravo foram feitas depois que voltou da Dinamarca, onde morou
christian cravo/reprodução
Dinamarca. Imagens de Christian Cravo foram feitas depois que voltou da Dinamarca, onde morou

São Paulo. Muitos livros nascem de recusas amorosas, mas poucos são produzidos após um pé na bunda editorial. O fotógrafo Christian Cravo é um exemplo dessa segunda categoria.

Ao oferecer seu ensaio mais recente para Charles Cosac, o artista baiano de 40 anos viu o dono da editora Cosac Naify argumentar que não seria possível publicá-lo.

“Quando Charles pediu para ver outro trabalho, fiquei sem chão”, conta Christian, filho do lendário fotógrafo Mario Cravo Neto (1947-2009). “Então minha mulher sugeriu apresentar o material antigo sobre Salvador”.

Meio a contragosto, ele reuniu os 10 mil registros feitos na juventude, no início da década de1990, quando tinha entre 17 e 19 anos. Na época, o fotógrafo havia voltado ao Brasil após 11 anos em Copenhague, na Dinamarca – terra natal de sua mãe.

Retornou a Charles Cosac, que não só aceitou a nova proposta como fez a seleção das fotos com Adriana Cravo, mulher do artista. O resultado, lançado no fim de 2014, é o livro que leva o nome do autor. “Christian Cravo” vem com 240 páginas e custa R$ 160.

Nas imagens em preto e branco, o jovem Christian capta a espontaneidade de crianças na praia, a religiosidade local e os contornos e os movimentos de corpos masculinos, tão negros que quase se tornam sombras.

“Apesar de ser filho de uma dinamarquesa, meu temperamento sempre foi tropical. Não havia nada na Dinamarca que me inspirasse”, explica. “Não vejo as imagens como uma visão estrangeira, seria limitado. Essas fotografias representam a antítese de tudo o que vivi anteriormente”.

Entre registros de mulheres nuas e grafismos nos mercados de Salvador, Christian fotografou um rapaz, de costas, segurando um peixe.

A imagem lembra uma das fotografias mais emblemáticas de seu pai, também em P&B, em que um homem suado carrega dois peixes cruzados em seu dorso. O filho conta que os bichos foram comprados por Mario Cravo Neto para produzir o icônico retrato.

Mas se engana quem pensa que Christian se inspirou em seu pai. Foi ao ver o negativo do filho que Mario Cravo Neto “roubou” a pose. “Meu pai foi pouco pai e eu, pouco filho. Nossa verdadeira amizade se deu pela fotografia”, conta. “Assim como ele roubou a imagem do peixe, eu também fiz outras imagens de autoria dele”.

Mas e “Luz & Sombra”, último trabalho de Christian, que abre este texto? Segundo o artista, o livro com fotos de países africanos deve ser lançado no fim deste ano.

Em paralelo, Charles Cosac planeja outro lançamento com o autor. “Recebi dois outros materiais de Christian: um sobre a Índia e outro com fotos intimistas. Escolhi o segundo”, diz Charles. “Isso não desmerece as fotos da Índia, apenas favorece as intimistas. Editar é escolher”.

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