Estreantes e atores em escalações inusitadas no elenco

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira Enviado especial |


Fellipe Barbosa conta que processo de seleção levou quatro anos
Imovision / Divulgação
Fellipe Barbosa conta que processo de seleção levou quatro anos

Tiradentes. Todo o talento do cineasta Fellipe Barbosa, porém, não faria de “Casa Grande” um filme tão potente sem o grande elenco que ele escalou para viver versões de pessoas tão próximas e importantes para ele. 

O principal provavelmente é Thales Cavalcanti, que vive o protagonista Jean e foi resultado de um processo de quatro anos selecionando potenciais atores no colégio São Bento, no Rio, exclusivo para meninos e onde o próprio Barbosa estudou. “Os alunos tinham que ser do próprio colégio. É mais fácil trabalhar com um grupo de amigos, e isso me ajudou a convencer os beneditinos de filmar ali”, explica o diretor sobre uma das principais locações do longa.

O cineasta admite que Thales não tinha a cara do Jean que ele imaginava, mas acabou sendo fundamental na construção do personagem. “No roteiro, ele era um alter ego, não muito definido, porque era difícil enxergar quais características minhas eram importantes para contar essa história”, explica Barbosa.

Ele resolveu, então, que o protagonista seria uma tela branca que o ator ajudaria a preencher. “E Thales tem uma sinceridade à flor da pele, meio ingênua, que o coloca em situações delicadas, e um desespero por ficar com mulheres que eu tinha muito nessa idade. E foram essas duas características que definiram o Jean”, revela.

Grande parte dessa sexualidade é canalizada para a empregada Rita. Ela é vivida pela pernambucana Clarissa Pinheiro, que foi eleita melhor atriz coadjuvante no Festival de Paulínia ao revolucionar de cabeça para baixo as relações de poder e sexualidade de Gilberto Freyre.

Quem também ganhou o prêmio de coadjuvante foi Marcello Novaes, numa escalação contraintuitiva como o patriarca Hugo. O cineasta diz que Novaes é conhecido por interpretar surfistas e pessoas da periferia, mas está muito ligado aos novos ricos da Barra da Tijuca, assim como Lucélia Santos, que também faz uma ponta no longa. “E eu quis fazer algo como o Burt Reynolds em ‘Boogie Nights’: tirar o ator do lugar que se espera dele”, argumenta.

E Novaes abraça essa aposta com um talento até então desconhecido, encarnando com perfeição a arrogância, a negação da realidade brasileira hoje e o pseudoliberalismo hipócrita da classe alta – além de protagonizar uma queda que não estava no roteiro e que representa perfeitamente o que aconteceu com seu protagonista.

Mas a melhor cena do filme é roubada pela grande revelação do elenco. Vivendo a doce e inteligente namorada “plebeia” do protagonista, a estreante Bruna Amaya encara em um churrasco com a família dele o clímax das tensões sociais que borbulham no subtexto do longa, numa sequência que causou desconforto e discussões no Festival de Cinema de Paulínia no ano passado.

Na cena, ela enfrenta sem medo o ressentimento recalcado da classe alta do país, em uma discussão de alguns minutos sobre a importância das cotas raciais, que reproduz na tela o debate político das últimas eleições, entre direita e esquerda, social e econômico, ricos e pobres. É um momento que explode sem concessões com a ideia de que brasileiro não discute política – e, por isso mesmo, incomoda tanto as pessoas que não gostam de pensar nisso. “Tem uma teatralidade de repetir o texto porque é uma discussão com os mesmos argumentos sempre, em que a gente reproduz a própria opinião, que já está formada e não vai mudar. Queria mostrar o quão teatral é isso”, afirma Barbosa.

Segundo ele, a cena também é muito sobre o próprio Jean, que reproduz as opiniões do pai, não sabendo se posicionar. “Mas as pessoas riem com a fala da vizinha no fina,l e, se elas riem, é porque a cena funciona”.

O repórter viajou a convite da Mostra

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