A queda da casa da Barra

Mostra exibe hoje “Casa Grande”, dirigido por Fellipe Barbosa, premiado nos festivais do Rio, São Paulo e Paulínia

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Mudanças. Thales Cavalcanti protagoniza o longa como Jean, um adolescente em fase de amadurecimento
imovision/divulgação
Mudanças. Thales Cavalcanti protagoniza o longa como Jean, um adolescente em fase de amadurecimento

Tiradentes. Em 1967, “No Calor da Noite” entrou para a história do cinema norte-americano com a cena em que o detetive vivido por Sidney Poitier dava um tapa na cara de seu suspeito. Era a primeira vez num filme hollywoodiano em que um personagem negro respondia à altura a um insulto racista dito por um branco – refletindo as lutas por igualdade racial nos EUA da época.

“Casa Grande”, que será exibido hoje na 18ª Mostra de Cinema de Tiradentes, tem duas cenas de impacto semelhante. Em uma delas, a cozinheira Noêmia questiona a perda dos valores morais na mansão onde trabalha. E na segunda, a doméstica Rita confronta a patroa sobre ter mexido nas coisas dela sem a sua autorização.

Mais do que tratar esses empregados como personagens complexos, e não meros coadjuvantes ou alívio cômico, essas cenas revelam o retrato que o segundo longa do carioca Fellipe Barbosa faz do Brasil hoje. De um momento em que a distância entre ricos e pobres sofreu uma diminuição considerável e como a classe alta tenta negociar a perda da posição, a que sempre sentiu ter direito, de donos do país, com as classes mais baixas tendo uma voz pela primeira vez na história. “É uma nova alforria, talvez a verdadeira alforria. Esse momento em que o empregado pode sair da casa porque tem opções, ao mesmo tempo em que existe um laço afetivo, que me interessa porque é muito cruel e esconde muita ignorância”, revela Barbosa.

O interessante é que “Casa Grande”, com previsão de estreia no circuito para 5 de março, faz essa análise macro a partir de um universo micro e pessoal. O longa conta a história de um clã de classe alta da Barra da Tijuca, no Rio, cujo patriarca Hugo (Marcello Novaes) vai à falência, à la Eike Batista – algo que realmente aconteceu com a família de Barbosa quando ele estava em Nova York fazendo mestrado em cinema, sem saber de nada. O diretor e roteirista traduz essa situação na tela ao contar a história do ponto de vista do filho Jean (Thales Cavalcanti), adolescente vivendo o ano do vestibular e os hormônios da descoberta sexual, enquanto tenta ignorar todos os sinais do desmoronamento do universo que o cerca.

Barbosa cria um conto de amadurecimento desse garoto, que passa a andar de ônibus pela primeira vez e começa a namorar uma garota da periferia. E, ao mesmo tempo, analisa a relação distante dele com os pais e calorosa com os empregados, em planos fixos conduzidos por música clássica, atualizando a oposição “Casa Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre. para os dias atuais, e a transformando em uma espécie de sátira nacional das produções sobre a nobreza britânica, como “Assassinato em Gosford Park” e “Downton Abbey”.

“Em todas as cenas com o pai na casa, toca a ‘Suíte para Cello’, de Bach, que é uma coisa que meu pai ouvia e diz muito sobre aquela família, esse desejo de aristocracia”, confessa Barbosa. São peças assim que acompanham sequências de jantares hilárias em que os pais discutem a falência em francês para esconder dos filhos, marcando o sarcasmo com que o cineasta enxerga esse universo. “O humor tem a ver não tanto com a escrita, mas com a forma como eu filmei, com certa distância que facilita um pouco o riso, e uma maneira mais teatral, com um plano fixo, mantendo a mise-en-scène num quadro e observando as negociações de poder e físicas”, explica.

Esse rigor formal de dar um passo para trás e fazer uma análise socioantropológica de seu habitat natural faz do longa uma espécie de “O Som ao Redor” na Barra da Tijuca. A comparação não é por acaso, já que, além de compartilharem o mesmo diretor de fotografia, Pedro Sotero, Barbosa e Kléber Mendonça Filho são amigos. “Os dois filmes falam do Brasil a partir de microcosmos muito próximos de nós, uma metonímia pra chegar à questão de classes. E ambos com certa distância em que você fica mais consciente do jogo e da construção cinematográfica”, analisa o carioca.

A diferença é que, enquanto o longa pernambucano escancarava as relações de poder perpetuadas há 500 anos no país, “Casa Grande” retrata as lentas transformações que vêm acontecendo nele recentemente.

E, por sua própria relação com a história, Barbosa alia esse humor sociológico a uma grande compaixão e carinho por aqueles personagens. “Jodorowski fala: ‘Não faça filmes sobre personagens que você ama, mas sobre personagens que você ama e odeia’, porque amor de verdade implica confronto”, filosofa Barbosa. Esse amor vem não só do cineasta chileno, mas de todo um cinema latino-americano que o diretor cita como referência, desde Lucrecia Martel a “E Sua Mãe Também”, “Cama Adentro” e “A Criada”.

É a mistura deliciosa de paixão, comédia e poesia visual dessas obras que Barbosa usa para elaborar as imagens grávidas de significado de seu filme. Do belo plano em que Jean desce as escadas da UFRJ, sintetizando a trajetória de sua família, às longas jornadas de ônibus que revelam a distância geográfica e simbólica com que essa “nobreza” da Barra vive do resto do Brasil e que vai sendo encurtada até culminar no genial plano final, o carioca escreve e dirige o melhor filme produzido no Brasil em 2014.

O repórter viajou a convite da Mostra

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