Documentário em Sundance questiona forma como o FBI desarma complôs

O documentário conta a história real de Saeed Torres, mais conhecido com Shariff, um informante de 63 anos do FBI que se encarrega de vigiar Khalifa al-Akili

iG Minas Gerais | AFP |

A sociedade americana está habituada a notícias de que a polícia impediu um plano para explodir uma bomba no Capitólio, um atentado contra um avião ou a agressão a um presidente, mas até que ponto esses complôs são reais?

O documentário "T (ERROR)", apresentado nesta semana durante o festival de cinema independente de Sundance, encontra surpreendentes respostas para essa pergunta, ao mergulhar em uma operação verídica do FBI para impedir um plano terrorista.

"As provas demonstram que os informantes não vão simplesmente às congregações para controlar e coletar provas sobre o terrorismo", conta David Sutcliffe, co-diretor do filme, durante entrevista à AFP em Park City (Utah, centro-oeste), onde acontece o festival.

"Eles mesmos são os que incentivam as atividades criminosas", assegura sua colega de direção, Lyric Cabral.

O documentário conta a história real de Saeed Torres, mais conhecido com Shariff, um informante de 63 anos do FBI que se encarrega de vigiar Khalifa al-Akili, um muçulmano recém-convertido de Pittsburg (noroeste).

O FBI quer que o informante avalie quais são as possibilidades de Akili viajar para o exterior para participar de treinamento para terroristas.

Shariff, também muçulmano, torna-se seu amigo em uma mesquita, enquanto se deixa ser gravado para o documentário sem o conhecimento do FBI.

"Era um homem deixado à própria sorte", disse Sutcliffe sobre o informante, que durante duas décadas trabalhou para o FBI com um bom salário, mas cuja vida sofreu uma reviravolta em 2005 quando sua identidade foi descoberta.

"Estava procurando outro caminho e pensou que (este documentário) poderia ser uma boa oportunidade", completa o diretor.

ABRIR O DEBATE

Shariff manteve contato com o homem através de uma conta no Facebook que o FBI abriu para ele - embora afirme que não o ensinou a usá-la.

Akili foi finalmente detido, mas a operação deixou exposta pela segunda vez sua identidade.

O número de informantes do FBI passou de 1.500 antes dos ataques do 11 de setembro de 2001 para 15.000 em 2008, aponta Sutcliffe. "Pode ser que este número tenha aumentado desde então", afirma.

Há duas semanas, as autoridades prenderam um homem que supostamente queria atacar o Congresso americano em nome do grupo Estado Islâmico (EI), segundo informações do Departamento de Justiça dos Estados Unidos e do FBI.

O presidente da Câmara de Representante, John Boehner, afirmou que o complô se desfez graças ao controverso programa de vigilância do governo americano.

Mas os diretores de "T(ERROR)" não estão muito convencidos da veracidade desta versão.

"Há alguns indícios que nos fazem pensar que o informante tinha um papel similar ao caso de Akili", salienta Sutcliffe.

"A explicação do FBI é que realmente é necessário um criminoso para pegar outro criminoso", afirma Cabral, lembrando que a maior parte das provas destes casos geralmente não é publicada porque o caso não vai a julgamento.

"Muitas vezes o público não tem a possibilidade de escutar o que o informante tem a dizer", conta Cabral. "O governo americano nunca escutará as fitas (com seu relato) a menos que haja um julgamento".

Cabral espera que seu documentário, que disputa a competição oficial do festival que termina no domingo, provoque um debate na sociedade.

"Esperamos poder estimular o diálogo do público sobre o uso de informantes por parte do FBI e informar os americanos sobre as estratégias e métodos que o FBI usa para alcançar essas sentenças", declara.

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