Nascente do Paraopeba morre

Principal fonte, em Cristiano Otoni, está praticamente seca e transposição preocupa especialistas

iG Minas Gerais | Angélica Diniz |

Morrendo. Nascente do Rio Paraopeba em Cristiano Otoni, esta secando com a falta de chuva no Estado e assusta moradores da região e ambientalistas
FOTOS ALEX DE JESUS
Morrendo. Nascente do Rio Paraopeba em Cristiano Otoni, esta secando com a falta de chuva no Estado e assusta moradores da região e ambientalistas

A aposta do governo de Minas para solucionar a crise de abastecimento na região metropolitana de Belo Horizonte pode estar ameaçada, antes mesmo de sair do papel. A principal nascente do rio Paraopeba, localizada no distrito de Cana do Reino, em Cristiano Otoni, região Central, está completamente seca. A reportagem de O TEMPO esteve nesta quarta no local e constatou o triste cenário de onde brota um dos mais importantes mananciais do Estado, responsável por abastecer grande parte da população da capital e região. A situação pode se agravar ainda mais se a obra de transposição do rio Paraopeba para o rio Manso, anunciada pelo governador Fernando Pimentel, se concretizar. Com a promessa de melhorar o abastecimento de água na região metropolitana até o fim do ano, a medida pretende alterar o ponto de captação de água do Paraopeba para reforçar o reservatório do rio Manso, ampliando em quatro metros cúbicos por segundo a captação de água. Para isso, será implantado, segundo o governo, uma adutora com quatro quilômetros de extensão. Nesta quarta, o governo federal garantiu apoio para a realização da obra. Para o coordenador de Educação Ambiental do Consórcio Intermunicipal da Bacia Hidrográfica do rio Paraopeba (Cibapar), Rafael Bernardes, a obra pode piorar ainda mais a grave situação do Paraopeba. “Vão tirar mais água de onde? Agora, só se for do subsolo. E essa água bombeada para o rio Manso não será própria para consumo, porque recebe todo o esgoto de várias cidades. Terão de investir mais ainda em tratamento da água”, questionou. O Paraopeba ganha mais volume quando recebe as águas dos rios Manso e Camapuã. Nunca visto. A completa seca da nascente deixou perplexo o morador Adão Alves da Silva, 60, que tem, há 42 anos, uma pequena propriedade a poucos metros do Paraopeba. Quatro pequenas nascentes, apontadas por ele, estão totalmente secas, mas ele acreditava existir pelo menos um fio de água na nascente principal, por causa da chuva que caiu no município anteontem. No entanto, ao acompanhar a equipe de O TEMPO até o local, ficou assustado com a situação encontrada. “Há alguns anos, bebíamos aqui mesmo água cristalina, que jorrava dessas pedras. Nunca vi uma situação dessas em toda a minha vida”, contou ele, arrancando uma planta aquática conhecida por ‘Roda Mundo’, e mostrando a raiz seca.

Solução Paliativos. O ambientalista Rafael Bernardes explicou que a construção de barraginhas seria um paliativo para minimizar os efeitos da seca nas fazendas vizinhas à nascente.

Boi morto A proteção de uma pequena mata nativa não foi suficiente para evitar a seca na nascente. “O desmatamento da cabeceira causou assoreamento e erosões em vários pontos”, apontou Rafael Bernardes, do Cibamar. Ele mostra que a poucos centímetros do curso d’água do Paraopeba há um boi morto em estado de decomposição.

Parte da água do Rio Manso é inapropriada A Copasa informou ontem que, após análise da equipe técnica sobre o volume do reservatório do Rio Manso, pertencente ao sistema Paraopeba e responsável pelo abastecimento de Belo Horizonte e região, foi identificado que parte desta capacidade não poderá ser utilizada para a distribuição de água na região. “O volume localizado no fundo da barragem, que corresponde a 0,98%, não tem qualidade para o tratamento por conter resíduos sólidos presentes no solo. Por esta razão, está fora dos padrões para a captação. Em números atualizados, hoje (ontem), o volume do Rio Manso está em 44,38%”, disse a nota. A Copasa informa também que os volumes dos reservatórios Serra Azul e Várzea das Flores estão com suas capacidades atualizadas.

Saiba mais Localização A nascente do rio Paraopeba pertence a uma fazenda de 22 alqueires, onde é criado gado de corte. Desmatamento A retirada da mata nativa no local teve início há cerca de 60 anos, para formação de pastos. Multa Um antigo proprietário desmatou a cabeceira da nascente do Paraopeba há 11 anos e, por isso, recebeu multa de R$ 60 mil do IEF. Proteção: O dono atual da fazenda cercou a área de cinco alqueires de mata nativa para proteger a nascente do Rio Paraopeba e impedir a entrada do rebanho. Eucalipto: Na cabeceira da nascente hoje existe uma plantação de eucalipto, que prejudica ainda mais o solo.

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