O amor do homem-lagarto

Maldita Cia. de Investigação Teatral reestreia “Maxilar Viril”, inspirado em conto de Eduardo Galeano, no CCBB

iG Minas Gerais | Luciana Romagnolli |

Ocupação. Grupo adianta que haverá mudanças na relação com o público, que em parte assistia à peça da plateia na primeira temporada
Guto Muniz
Ocupação. Grupo adianta que haverá mudanças na relação com o público, que em parte assistia à peça da plateia na primeira temporada

“Na primeira noite, o lagarto lançou-se sobre sua esposa e devorou-a. Quando o sol despontou, no leito nupcial havia apenas um viúvo dormindo, rodeado de ossinhos”. O trecho escrito pelo uruguaio Eduardo Galeano foi retirado do conto “História do Lagarto que Tinha o Costume de Jantar suas Mulheres” e inspirou o espetáculo mais recente da Maldita Cia. de Investigação Teatral: “Maxilar Viril”.

Amaury Borges, diretor e dramaturgo, recortou a parte final da história sobre um “senhor de todas as coisas” sem herdeiro, que exige da mulher um filho e, quando o parto acontece, nasce um ser meio homem, meio lagarto – e com um peculiar gosto por devorar suas esposas. “Maxilar Viril” assume a narrativa a partir do momento em que o pai já morreu e o homem-lagarto, sob os cuidados da mãe, encontra uma mulher lendo, a primeira por quem se apaixona.

“A gente toca exatamente nas questões sobre onde nascem os poderes e a violência das relações, a família, a possibilidade de continuação da espécie. A partir daí vem toda a reflexão do espetáculo, que é bastante plástico e visual”, comenta Borges.

O trabalho reestreia amanhã no Centro Cultural Banco do Brasil pela programação do 9º Verão Arte Contemporânea – VAC, levando adiante a linguagem que o grupo vem desenvolvendo desde 2002. “É resultado de uma pesquisa nossa sobre a questão da violência na atualidade, essas questões urbanas”, observa o diretor, que divide a cena com Elba Rocha, Fernando Barcellos e Lenine Martins.

Assim como o conto de Galeano, contribuíram para a construção dramatúrgica referências factuais sobre um episódio violento ocorrido no Peru três décadas atrás. “A gente faz um paralelo entre o massacre do grupo comunista Sendero Luminoso e a Comissão da Verdade”, observa Borges.

A inserção do espectador na cena e a ocupação do espaço – dois princípios recorrentes no fazer da Maldita, como se viu em “Cara Preta”, que ocupou a Gruta! no VAC de 2010 – tomam nova forma com a opção por se apresentar em espaços tradicionais de teatro. O desejo é de renovar o olhar dos espectadores sobre esses lugares de arte, ao mesmo tempo em que o provoca a pensar sobre questões políticas de uma sociedade de consumo, espetacularizada e agressiva.

“A gente trabalhava com uma ocupação do espaço até então não convencional, como cinemas, bares, asilos. Agora, queremos rever essa condição do espectador e da cena e mudar a percepção dele sobre o espaço”, diz o diretor.

No ano passado, quando “Maxilar Viril” estreou no Oi Futuro Klauss Vianna, o público era separado entre homens e mulheres: uns assistiam da plateia, outros de bancos dispostos ao fundo do palco. Ao retomar a montagem para ocupar o teatro do CCBB, uma série de mudanças foi feita, inclusive nessa dinâmica de disposição dos espectadores.

“Modificamos bastante o espetáculo em função do amadurecimento da linguagem, da produção do espaço novo e desse jogo com o espectador. Resolvemos deixar um pouco mais claro o próprio desenho da história”, conta Borges. “Fizemos uma primeira temporada de estreia rápida em função do contrato com o Oi Futuro, e sabemos que nossos espetáculos sempre estão em processo de construção. Acho que (agora) está mais inteiro”, completa o diretor.

Agora, os espectadores entram no teatro por um caminho incomum e a separação entre um “ponto de vista feminino” e um “ponto de vista masculino” acontece, mas, segundo o criador, sem a pretensão de discutir questões de gênero. “A gente coloca mulheres na condição de mães, e homens na condição de filhos”, sintetiza.

Para compartilhar com o espectador essa experiência, a Maldita faz o que chama de “concerto épico-dramático”. Unem-se, assim, músicos em cena a uma abordagem ora narrativa, ora de vivência dos dramas. “Ficamos jogando com esses dois gêneros e disso surge uma terceira possibilidade, com o espectador ativo”, diz Borges.

Agenda

O Quê. “Maxilar Viril”, com a Maldita Cia.

Quando. De amanhã a segunda-feira, às 20h

Onde. Teatro do Centro Cultural Banco do Brasil (praça da Liberdade, 450)

Quanto. R$ 10

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave