Um mês esquisito

iG Minas Gerais |

acir galvao
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Abençoada a chuva dos últimos dias. Nunca o barulho de trovoadas me alegrou tanto. A atmosfera límpida e o milagre da natureza se fizeram presentes no gramado de minha casa, até então esturricado, dando “o verde ar de sua graça”. Não sei se as pessoas estão se dando conta da gravidade da situação devida à falta de água e energia em nosso país. Para piorar, a falta de empregos e oportunidades que virá simultaneamente à desgraça. Não existe um amigo com quem converso que não tenha um caso para contar: quem é empresário está demitindo, quem é funcionário teme a demissão. A situação está tão crítica que até a presidente sumiu. Sua última aparição foi na posse do presidente cocaleiro Evo Morales, ao lado da também presidente Cristina Kirchner, da Argentina, que, em termos de incompetência administrativa, perde apenas para os desvairados da Venezuela, onde existe fila até para comprar papel higiênico. Na minha casa, já avisei: economia total, nada de desperdícios, como lavar carros desnecessariamente, lavar calçadas, molhar gramados. Acendeu? Desliga quando sair. Torneira pingando? Troca a buchinha, afinal, 46 litros de água podem ir pelo ralo do desperdício. Lavar pratos e talheres? Ensaboe todos de uma vez, com a torneira fechada, e só depois enxágue. Lembrem-se de que o desperdício de torneiras abertas enquanto lavamos a louça pode ser de mais de cem litros. Atualmente, quando vou tomar banho, desligo o chuveiro na hora de me ensaboar, afinal, um simples banho pode chegar a gastar 180 litros de água limpa. O mesmo funciona quando escovo os dentes: se a torneira ficar aberta, o desperdício é de até 25 litros de água. Estou “neurada”? Não, estou apenas consciente do que nos espera pela frente, e, se cada um fizer a sua parte, o problema (que é de todos) poderá ser amenizado. Vejo que nessa história, além de água e energia, faltam investimentos, competência, medidas preventivas, campanhas educativas e, claro, uma forcinha de são Pedro, que nos últimos tempos, pelo jeito, saiu de férias e ficou por lá mesmo. Sinto que este mês de janeiro começou esquisito. Além de incertezas, medos e insegurança das pessoas, aconteceram fatos que me chamaram a atenção. Por exemplo, o caso dos cartunistas e jornalistas assassinados na França. Longe de mim defender malucos e extremistas, mas me pergunto: por que foram mexer em caixa de marimbondos? O islamismo é uma religião do bem, cheia de virtudes, como todas as outras. Mas, como em tudo há aqueles (que, infelizmente, são muitos) que a desvirtuam, tornando-se radicais, cegos pelo fanatismo, capazes de cometer, em nome do seu deus, insanidades inimagináveis. E com gente assim, todo cuidado é pouco. Lembram-se do pastor que chutou a santa? E da repercussão negativa que isso gerou entre os católicos? Religiões devem ser respeitadas, com elas não se brinca, não se fazem piadinhas de mau gosto, como as que vi em algumas das charges divulgadas pela revista francesa “Charlie Hebdo”. Provavelmente, depois do fatídico atentado (que não se justifica em hipótese alguma), a população muçulmana que não é extremista, que não se alimenta de ódio e espírito revanchista, irá pagar por isso. O preconceito, que já era grande naquele país, ficará ainda maior. E os conflitos, com certeza, se intensificarão. Outro caso que explodiu na mídia e me chamou a atenção: o do brasileiro Marco Archer, um traficante condenado à morte diante das leis e dos costumes da Indonésia por entrar com 13 kg de cocaína num país cujas leis rigorosas punem com a perda da vida quem as transgride. Se ele sabia disso, por que embarcou nessa? Tentar levar escondidos, na armação de uma asa-delta, alguns quilos de desgraça, vícios e tragédias a uma população que, até então, se encontra livre disso? Por quê? Não concordo com a violência, com a frieza e a irracionalidade de um fuzilamento, nem com a intransigência das leis daquele país, mas, independentemente das questões morais, me pergunto se o homem que foi “assassinado” também não era um “assassino”. Quantos jovens e famílias foram e são desmantelados pela droga, quanto sofrimento embutido naqueles pacotinhos, quantas tragédias poderiam ser evitadas se elas não fossem produzidas e distribuídas? Quem as trafica, trafica vidas. Milhares de jovens são fuzilados todos os dias por essa “arma” poderosa chamada “droga”. Quero voltar a falar da chuva, que agora, no finzinho da tarde, voltou a dar o ar da graça. E peço pra são Pedro continuar por aqui, amenizando um pouco dessa atmosfera pesada que paira sobre nós, pondo ordem na balbúrdia que está virando o nosso país. Afinal, vivendo sem água, sem luz e sem credibilidade, ninguém consegue ser feliz.

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