Um corpo em transformação

Na mostra “Inflamável”, Ana Luisa Santos convida o público a testemunhar diferentes faces da performance

iG Minas Gerais | daniel toledo |

“Não nu vendo vendada”. A artista propõe combinações de roupas sem poder vê-las
fernanda branco polse/divulgação
“Não nu vendo vendada”. A artista propõe combinações de roupas sem poder vê-las

Vinho, canapé, música ambiente, gente bem vestida e algumas obras expostas na parede. Tudo caminhava dentro dos protocolos de uma vernissage convencional até que, em certo momento da noite, a artista em exposição resolveu atualizar o próprio perfume e só parou quando o frasco de 100ml havia se esvaziado, contaminando todo o ambiente com a mítica fragrância do Chanel nº5. Ali tinha início a exposição “Inflamável”, que segue na Galeria BDMG Cultural – e em seus arredores – até o próximo dia 8 (domingo), reunindo 11 trabalhos e sete registros de trabalhos realizados pela performer Ana Luisa Santos. Enquanto os registros permanecem na galeria durante todo o período da exposição, as ações performáticas acontecem às quartas, sextas e domingos, sempre às 15h. “São trabalhos muito diferentes, que, cada qual ao seu modo, problematizam as relações entre corpo e sociedade. Nesse escopo estão, por exemplo, relações políticas, sexuais e de aparência também, já que lidamos cada vez mais com nossa própria imagem e também com a imagem do outro. A arte surge, então, como um caminho para revelar e romper cascas sociais, assim como descobrir novas formas de vida, mais interessantes, conscientes, autênticas e, sobretudo, presentes”, observa Ana Luisa. Entre os trabalhos incluídos na mostra, estão ações relativamente simples, como aplicar em si mesma um frasco inteiro de perfume diante dos convidados da vernissage (“F5”), e outras mais complexas, como a que a artista realiza amanhã à tarde. Em “Ralo”, programada para as 15h, Ana Luisa permanecerá presa ao espaço da galeria a partir de um sistema feito com fios e ventosas. “Nesse trabalho, de caráter instalacional e quase escultórico, o que interessa é chamar atenção ao modo como nos relacionamos com nossos espaços de vida, sejam eles artísticos ou não”, pontua. Aproximação. Em cartaz já há duas semanas, a mostra oferece ao público da cidade uma oportunidade bastante singular de entrar em contato com uma linguagem artística que, apesar de já não ser tão recente, parece ainda guardar uma indesejada aura de incompreensão. “Essa aura, aliás, é algo que toca toda a arte contemporânea – e não somente a performance. Mas quando você reúne tantos trabalhos em uma mesma mostra, acaba levando ao primeiro plano uma versatilidade que não é só minha, mas da própria linguagem. E isso me faz pensar se a performance não é exatamente isso: um desdobramento de estados do corpo”, sintetiza a artista, em referência à sua primeira exposição individual. Não por acaso, explica ela, a concepção da mostra também incluiu a criação de um blog (veja link abaixo) onde, após cada uma das 11 performances apresentadas ao longo da programação, Ana Luísa publica imagens e relatos que oferecem outros caminhos de aproximação entre o público e os trabalhos. “Tenho escrito esses relatos com muita liberdade, sem me preocupar em construir crítica ou teoria de arte. São textos que remetem à experiência proporcionada por cada trabalho e permitem às pessoas que não estiveram ali, em presença, acessar as ações de uma outra maneira”, explica. Também deriva do desejo de se aproximar do público a atividade programada para o último dia de exposição: uma inusitada “finissage”. “No caso de uma exposição de performance, a ideia de um evento ao fim da temporada parece fazer muito sentido, já que o trabalho só vai estar realmente concluído naquele último dia”. Para o evento que encerra sua passagem pela Galeria BDMG, Ana Luisa está preparando uma apresentação com imagens de todas as ações realizadas ao longo da mostra. “Minha intenção é abrir um pouco o processo de criação de cada trabalho e, ao mesmo tempo, estabelecer um espaço de conversa para pessoas que eventualmente tenham curiosidade sobre as ações. É, sobretudo, uma oportunidade de gerar certa proximidade com o público, que, até mesmo pela atmosfera que se cria durante uma performance, muitas vezes não se sente à vontade ou mesmo autorizado a conversar com o artista logo após a ação”, pontua. Agenda O quê. Mostra “Inflamável”, de Ana Luisa Santos Quando. Até 8 de fevereiro (diariamente, das 10h às 18h) Onde. Galeria BDMG Cultural (rua Bernardo Guimarães, 1.600, Lourdes) Quanto. Entrada gratuita

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