Tempo de convulsões

A costura desses fragmentos, tanto quanto algumas partes do texto, ainda merece novo tratamento

iG Minas Gerais | Luciana Romagnolli |

Oficinão. Direção de João das Neves e Rodrigo Jerônimo, com o Grupo dos Dez e atores selecionados
Flavio Charchar
Oficinão. Direção de João das Neves e Rodrigo Jerônimo, com o Grupo dos Dez e atores selecionados

“Madame Satã”, na versão do Oficinão 2014 do Galpão Cine Horto, é a figura emblemática de uma convulsão social agravada em tempos atuais pelas forças reacionária aos direitos daqueles postos à margem. Daí a urgência do espetáculo: enfrentar com contundência, sem dispensar nem o discurso direto nem a poesia musical, o preconceito e a violência que reservam para parte da população um destino de agressões e reduzida expectativa de vida.

A beleza da montagem codirigida por Rodrigo Jerônimo e João das Neves está nessa dinâmica entre opostos, de um lado a denúncia crua e necessária, que impõe-se pela razão. De outro, a vivacidade de homens e mulheres que cantam, dançam e seduzem pela graça de peles, cabelos, vozes e corpos negros, como tão raramente se vê em predominância em palcos brasileiros. A arte eleva o discurso do panfleto à experiência sensível incomum.

Além disso, “Madame Satã” apresenta um teatro musical como pouco se tem feito no país, com composições originais que narram ações e sentimentos, fundamentando a dramaturgia. A direção musical de Bia Nogueira esmera-se em detalhes, costurando ritmicamente objetos e figurinos aos tantos instrumentos musicais presentes.

A dramaturgia coloca o espectador na posição de quem assiste a um show numa casa de prostituição. Tal situação, somada à abordagem pela qual Madame Satã é suporte para discussões sobre a sociedade atual, esvazia a atenção à biografia de João Francisco dos Santos. Esta é contada em relances de infância e vida adulta que mais servem a iluminar o contexto social de pobreza e opressão determinante para ações e reações.

A costura desses fragmentos, tanto quanto algumas partes do texto, ainda merece novo tratamento. É notável a familiaridade maior do Grupo dos Dez com o musical do que com o teatral também em parte dos desenhos de cena. Por vezes, a simplicidade do cenário se faz vazio. Mas há momentos intensamente belos, quando a mínima movimentação dos cubos cria o mar, cortinas vermelhas se abrem a Satã à caráter ou o breu amplifica as vozes.

“Madame Satã”

A temporada segue até 8 de fevereiro, com apresentações de quinta a sábado, às 21h, e aos domingos, às 19h, no Galpão Cine Horto (rua Pitangui, 3.613, Horto). Ingressos a R$ 16 e R$ 8 (meia).

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