A inquietude do poeta

Lançando quatro filmes e apresentando sua banda em Tiradentes, Dellani Lima celebra o reconhecimento

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

“Mineiro”. Nascido na Paraíba, Dellani, ao se mudar para BH, se tornou uma das vozes da cena cultural da cidade
nereu jr/universo produções/ divulgação
“Mineiro”. Nascido na Paraíba, Dellani, ao se mudar para BH, se tornou uma das vozes da cena cultural da cidade

Dellani Lima é diretor, músico, ator, escritor, montador. Só na Mostra de Cinema de Tiradentes deste ano, ele tem quatro trabalhos. Dirigiu o curta “Agreste” e o longa “O Tempo Não Existe no Lugar Onde Estamos”. Atuou nos curtas “José Baleia” e “Max Uber”, e ainda montou e fez a trilha deste último. De quebra, se apresentou com sua banda de “eletro frevo bossa punk” Madame Rrose Sélavy na noite de ontem – show que eles levam a Belo Horizonte nesta quinta e sexta, no Centro Cultural Banco do Brasil, dentro da programação do Verão Arte Contemporânea (VAC), comemorando os seis anos do grupo e o lançamento de seu nono álbum “Carnaval dos Bichos”. Tiradentes.  

Mas para ele, na verdade, tudo começa e termina na poesia. “É onde eu comecei e onde tudo converge no meu trabalho”, define. Filho de uma artesã e neto de um cineasta/inventor, nascido em Campina Grande, na Paraíba, e criado em Fortaleza, no Ceará, Dellani decidiu seguir a veia artística da família. Para um garoto de periferia, de classe operária, a opção mais possível para isso foi uma máquina de datilografia, ainda adolescente nos anos 1990, em que ele começou a escrever seus poemas. “Mas comecei a pensar na inviabilidade, quase irreal, de publicar um livro e comprei um violão para musicar o que eu escrevia”, lembra, apontando a inquietude que marcaria toda sua carreira.

Dellani brinca que, “sem tocar Legião Urbana ou Raul”, limitando-se a suas próprias composições, ele nunca fez muito sucesso. Foi só anos mais tarde, quando Orlando Senna e Maurice Capovilla foram convidados para montar uma escola de cinema no Ceará, que ele se embrenhou pelo audiovisual, pensando em levar sua paixão pela escrita para a área de roteiro. “Mas aí eu descobri a montagem e me apaixonei por forma, Godard, aqueles filmes de que eu nunca tinha gostado. Aquela criação tem tudo a ver com a escrita”, explica.

Foi por isso que, quando Capovilla e Senna foram demitidos e o curso se descaracterizou, Dellani acabou vindo para Belo Horizonte trabalhar com videoartistas como Éder Santos, que ele já vinha pesquisando. Aqui, o cearense encontrou sua turma e sua voz. Logo que chegou, o mineiro Carlos Magno Rodrigues pediu para trabalhar com algumas fitas VHS do cearense que haviam mofado, e os dois coassinaram o resultado, “América Ctrl+S”.

Era o primeiro curta de Dellani, e também seu primeiro trabalho exibido em Tiradentes, em 2000. Começava ali uma história de 15 anos com o festival, onde ele lançaria também seu terceiro longa, “O Céu Está Azul com Nuvens Vermelhas”, em 2007. Numa época em que a divisão entre cinema e vídeo ainda era bem marcada, e exibido ao lado de produções com grande orçamento, o filme experimental não foi bem recebido pelo público presente. “Foi horrível, a galera gritou que era desperdício de dinheiro. Saí com segurança da sessão, chorando”, recorda o cineasta.

Embalado pelo boom da democratização digital e pela ascensão da produção dos chamados “coletivos” em Belo Horizonte, Dellani acabou se tornando um dos principais rostos dessa nova cena cultural mineira. Parte integrante desse movimento, ele identifica a raiz do que levou à crise e a crítica aos coletivos, culminada com o “exposé” do Fora do Eixo em 2013. “De repente, o cara que tinha dois trabalhos selecionados em um festival não queria mais colaborar no do outro, queria desenvolver só suas ideias. E aí, vinha a inveja...”, suspira.

Mas ele reconhece que a geração nova que está substituindo os coletivos está dando o próximo passo. “Minas tem muita produção, mas falta espaço para todo mundo. E essa galera nova está brigando por isso, por circulação, distribuição, juntando a vontade dos anos 1990 de fazer dinheiro com os princípios colaborativos e independentes dos coletivos”, analisa o artista, que trocou Belo Horizonte por São Paulo há pouco tempo exatamente devido às maiores oportunidades para sua banda Madame Rrose Sélavy.

E foi na colaboração em trabalhos alheios que Dellani aprendeu a canalizar sua arte. Atuando, montando, escrevendo e compondo trilhas, ele passou a entender quais ideias funcionavam melhor como uma música, um conto, um curta ou um longa. E, ao descobrir qual o conceito “experimental” de seu trabalho, conseguiu o reconhecimento dele. “Experimental é a experiência do processo, e não um gênero. E o que eu sempre vou fazer é um cinema que surge dessa experiência”, argumenta.

O jornalista viajou a convite da Mostra de Cinema de Tiradentes

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