Dilma com Levy repete Lula com Palocci em 2003

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DUKE
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A política econômica do ministro Joaquim Levy tem gerado uma sensação de alívio e ansiedade típica das temporadas de crise. A ansiedade resulta da avaliação dos desdobramentos das medidas, uma vez que elas implicam automático reajuste no preço dos combustíveis para o consumidor. O efeito inflacionário do pacote fará com que a inflação medida em 12 meses atinja um percentual de mais 7% ao mês, afastando-se ainda mais da meta de 4,5%. Esse, porém, é apenas um detalhe do rearranjo produzido pelo enfrentamento da realidade. Há evidente conforto quando Levy adota medidas de correção fiscal, como a rodada de aumento de impostos da semana passada. Somadas, elas serão capazes de aumentar a arrecadação em R$ 20 bilhões. A reação dos mercados foi positiva e imediata. O momento guarda certa relação com 2003. E, se der certo, pode gerar uma onda de otimismo com relação ao país. Depois do anúncio, Joaquim Levy foi para Davos, na Suíça, colher os louros de suas atitudes e medir a temperatura do mercado financeiro. Em Davos, o ministro recebeu elogios da comunidade financeira internacional, para quem o Brasil voltou a merecer crédito e confiança, indispensáveis à recuperação da economia. Aqui dentro, o dólar pisou no freio, revertendo escalada rumo a uma taxa de R$ 2,70, no fim do ano, de acordo com os relatórios dos departamentos de economia dos bancos. Dilma Rousseff, pelo seu lado, continua sem falar desde a posse. Adota uma postura cautelosa e se poupa de desgastes com parte de sua base política, que não gosta dos ajustes. Porém, foi à posse de Evo Morales, na Bolívia. Vamos precisar do gás dos vizinhos, e um novo acordo terá de ser assinado em 2019. Quando o Brasil precisou renovar – ou, para usar um eufemismo, estender – o acordo com o FMI em 2003, Lula saiu em viagem para a África. Deixou Antonio Palocci com a responsabilidade de anunciar a extensão do acordo e tourear os insatisfeitos. Na semana passada, a dupla Dilma-Levy funcionou como nos tempos de Lula-Palocci. Dilma calada, e Levy anunciando um pacote amplo de medidas de grande impacto fiscal. Outro ponto de convergência com 2003 é a resistência de sempre do PT às políticas econômicas mais contracionistas. Nas últimas duas semanas, nomes expressivos do partido tornaram pública sua insatisfação, como o vice-presidente do PT, Alberto Cantalice, e o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu. Em 2004, em jantar na casa de Sigmaringa Seixas, em Brasília, Dirceu, então ministro da Casa Civil, não se incomodou em dizer para os presentes, todos do mercado financeiro, que a política econômica de Palocci afundaria o partido. Praticava o fogo amigo de forma aberta e franca, ainda que pudesse intranquilizar o mercado e a economia. Um dado preocupante adicional é a eventual resistência do Congresso. Pois, para entrar em vigor, parte substancial das providências de Levy terá que passar pelo crivo do Congresso. Ali, já começa a se formar uma resistência alimentada pelo próprio partido do governo. Porém, não há outro caminho para Dilma. Sem enfrentar os desafios políticos de agora, os desafios econômicos podem vir a inviabilizar o governo. A liberdade de Levy para anunciar e operar o ajuste fiscal é um bom sinal para o país e revela que, pelo menos em seu início, ele está tendo a liberdade necessária para estabilizar a economia. O caminho que parece ser o escolhido por Dilma também guarda relação com 2003, quando Palocci teve liberdade para fazer o que era necessário para reconstruir a credibilidade econômica do país.

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