Errar calado e por calar-se

iG Minas Gerais |

Um sintoma inconteste da impopularidade de uma pessoa é a impopularidade de suas atitudes. Um amigo comentou recentemente que esse é o quadro atual de Dilma, com um agravante: se fez assim, está errada; se fez assado, também; e erra ainda que deixe de fazer. O momento de pôr em curso decisões impopulares é agora, não só porque a conjuntura pede, mas também porque é começo de mandato. Se as coisas melhorarem depois de 2016, terá valido a pena no cômputo eleitoral. Reclamar da incoerência com o que se vendeu durante a campanha do ano passado é inútil. Compensa mais chorar abraçado ao travesseiro para ver se se conquistam alguns pontos na escala da tosca maturidade política. Acontece que a situação da presidente está difícil até jogando em casa. Da parte dos tucanos e amigos, que se recusaram ao diálogo e a oferecer a outra face, era de se esperar a postura crítica tão firme como superficial: “Dilma não mudou? Avisamos que as preferências dela tendem a afundar o país”. “Dilma mudou? Estão vendo como ela mentiu na campanha?” Já do seio petista vem o jato de impopularidade mais importante. A escolha de ministros como Joaquim Levy e Kátia Abreu abriu feridas no partido, somando-se a esses perfis pouco afeitos aos companheiros a decisão de pôr o pessoal do Lula para fora do Planalto. Foi Marta quem pôs a boca no mundo e expôs o cisma. Na economia, o fato de Levy ser e agir como um “Chicago Boy” de pedigree não surpreende, assim como a repercussão de sua ortodoxia dentro do “PT de raiz”. Novidade é termos um ministro da Fazenda com, aparentemente, autonomia para além de mero agente da “chefa”. A que distância irá essa corda? Entre os petistas que andam torcendo o nariz, Levy é comparado à gestão Palocci no primeiro ano do governo Lula. Quando 2003 ainda estava pela metade, foram lançados livros, artigos e manifestos de intelectuais e militantes insatisfeitos com a condução da Fazenda e frustrados diante das imensas expectativas inspiradas pela ascensão do líder operário. A diferença para a situação de agora é que, na circunstância passada, as esperanças eram realmente enormes. Já hoje a falta de expectativas é que pode sentenciar um futuro menos próspero. O que Dilma precisa para que alguma coisa que faça seja encarada como positiva é se comunicar. Quando ela venceu, em 26 de outubro, discursou pregando a reconciliação. Parecia o primeiro passo para um novo ciclo, uma transição da gerente para a estadista. Ficou só parecendo, e a impressão só se esmaece. O país enfrentará dias difíceis, de racionamento, escassez, talvez de desemprego. É papel do chefe de Estado vir a público nesses casos e falar, justificar suas escolhas, explicar por que um passo supostamente para, trás é o melhor caminho para dar dois a frente depois. Se ela não fizer isso, mais do que a suspeita de soberba, estará confirmada sua inaptidão em fazer política aos melhores modos republicanos.

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