Meu pecado será sua herança

Premiado em festivais internacionais, “Obra” explora complexa relação de São Paulo com sua história

iG Minas Gerais | daniel oliveira |

André Dip
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Tiradentes. A 18ª Mostra de Cinema de Tiradentes começou na última sexta com a história de um protagonista mergulhando de cabeça em um passado povoado de fantasmas em “Órfãos do Eldorado”. E o longa paulistano “Obra”, exibido na noite de domingo, fez dessa temática uma tendência do festival, ao contar a história do arquiteto João Carlos (Irandhir Santos) que, durante uma construção em um terreno da família, descobre ossadas de várias pessoas enterradas ali. 

  Só que, enquanto o Arminto vivido por Daniel de Oliveira em “Órfãos do Eldorado” abraçava e se perdia em sua busca, a narrativa de “Obra” é marcada pela relutância de seu protagonista em lidar com sua herança familiar. E essa ideia da negação do passado na metrópole paulistana foi o ponto de partida do longa. “Andando por Tiradentes, eu tenho a sensação de um sítio arqueológico aberto, passado e presente na mesma camada. Já em São Paulo, olhar para o passado parece um empecilho ao progresso, como se atrapalhasse o andamento do futuro”, afirma o diretor e roteirista Gregorio Graziosi, que faz sua estreia em longa-metragem após cinco curtas.    Esse confronto entre passado e futuro se manifesta ainda na vida pessoal do protagonista. Além da obra do título, o arquiteto está prestes a ter o primeiro filho, reforçando essa sua obsessão em construir o futuro. Ao mesmo tempo, porém, a esposa (vivida pela inglesa Lola Peplo, afilhada de Bernardo Bertolucci)  é uma arqueóloga urbana, escavando sítios arqueológicos em São Paulo. “Queria explorar o que chamo de refluxo da memória: você pode pegar o passado e cobrir de terra, mas ele volta à superfície e é preciso lidar com ele”, explica Graziosi.    A ideia de trazer o passado à tona aparece ainda na escolha do preto e branco para a fotografia do filme. Trabalhando com planos abertos e pouquíssimos elementos em cena, “Obra” retira todas as informações relativas ao presente do quadro, transformando o filme nesse verdadeiro encontro entre passado e futuro. “E é a melhor interpretação plástica da cidade. São Paulo é uma cidade que não tem cor, é cinza”, avalia o diretor.    Essa preocupação com a utilização funcional do espaço e esse olhar analítico sobre São Paulo não são por acaso, já que Graziosi é filho e neto de arquitetos e chegou a iniciar o curso na faculdade. “A arquitetura fala nesse filme. Ela tem uma função dramática importante, não só como eu coloco as coisas em cena, mas como ela interfere nesses personagens” ele explica.    Segundo o cineasta, a ideia dos espaços exercendo essa influência determinante sobre o que acontece na história vem ainda de uma de suas maiores influências: o cinema do italiano Michelangelo Antonioni. “Queria usar pedaços arquitetônicos para oprimir os personagens no plano, como uma adaga emocional. Quando comecei a viajar para outras cidades mais humanas, percebi o quanto São Paulo é opressor, o quanto ela pode funcionar como uma panela de pressão, e eu uso isso a favor da narrativa”, define.    E para dar vida e traduzir na tela esse efeito nocivo sofrido pelos sujeitos nas grandes cidades, Graziosi conta com mais uma grande performance de Irandhir Santos. “Conheci o Irandhir no set do (longa) ‘Permanência’ e fiquei impressionado pela precisão dos gestos que ele repetia. Percebi que esse elemento físico do trabalho dele funcionaria muito bem no ‘Obra’”, lembra o cineasta.    Essa fisicalidade é fundamental porque, sem conseguir exprimir o que sente, João Carlos somatiza seu sofrimento no corpo, em uma hérnia que é outro símbolo dessa terrível herança familiar – e cuja dor Irandhir encena em uma sequência incrível de três minutos em que o protagonista tenta se vestir. “Ele trabalha ali algo entre o ator e o dançarino contemporâneo, com uma emoção  que talvez cause um tipo de estranheza porque você precisa codificá-la, mais próxima de quem visita um quadro em um museu”, explica Graziosi, definindo a experiência de assistir ao seu filme.   

* O repórter viajou a convite da Mostra

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