Sem meter medo e à procura de sua fênix Marilyn Manson lança disco após morte da mãe e trata temores com tristeza melódica “The Pale Emperor”

Marilyn Manson lança disco após morte da mãe e trata temores com tristeza melódica

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Mudanças. As fotografias que ilustram “The Pale Emperor” ainda são darks, porém, estão mais sutis
Cooking Vinyl/divulgação
Mudanças. As fotografias que ilustram “The Pale Emperor” ainda são darks, porém, estão mais sutis

Marilyn Manson é humano, apesar de todas as bizarrices que o cercam tentarem colocar em xeque essa obviedade. Embora suas fraquezas sejam menos divulgadas do que suas psicoses e insanidades, “The Pale Emperor” (Cooking Vinyl), nono álbum de estúdio do cantor norte-americano, expõe como a perda de sua mãe contribuiu para ele se enfiar numa espécie de labirinto musical à procura de um renascimento. O disco marca mais do que seu afastamento latente do rock industrial, mas revela um artista que deixou de meter medo para se fragilizar com sua própria escuridão.

“The Pale Emperor” foi lançado oficialmente no último dia 20, mas está disponível para audição gratuita em streaming na plataforma brazuca Lab334 desde o dia 15 de janeiro, através do site Rdio (www.rdio.com) – o download não é permitido.

Certamente poucos fãs esperariam um retorno à ultrapassada trinca de sexo, violência e religião abandonada por Manson há alguns anos, ou à sonoridade parecida com seus álbuns mais pesados, “Antichrist Superstar” (1996) e “Mechanical Animals” (1998). Aliás, desde “Eat Me, Drink Me” (2007), o príncipe das trevas se alinhou ao rock gótico, influenciado por pitadas de new wave e eletrônica. No último disco, “Born Villain” (2102), disse estar insatisfeito com seu trabalho e ter perdido a noção de quem era.

Neste disco, ele parece tentar se reencontrar. Levadas macabras de blues são uma agradável e recorrente novidade, marcando faixas como “Birds of Hell Awaiting” e “Odds of Even”. Mas, muito além de uma continuidade sonora recente, “The Pale Emperor” expõe o desejo de Marilyn Manson soar cinematográfico e, consequentemente, melódico. Por isso, as dez canções inéditas foram arranjadas com o compositor de trilhas sonoras Tyler Bates, presente nos longas “300” e “Guardiões da Galáxia”.

O peso dessa escolha está na morte da mãe de Marilyn Manson, Barbara J. Warner, aos 68 anos, em decorrência de demência, em maio do ano passado – é para ela que Manson dedica o álbum. As habitual agressividade e a violência do príncipe das trevas estão transvestidas de dores e melodias ancoradas mais na tristeza do que nas sombras, soando, assim, bem mais melódico do que dark.

“Deep Six” se escora na influência pegajosa do new wave e se veste de hit de balada, mas a letra conserva o nível sagaz do cantor, ao dizer que “love is evol” – sendo que “evol” é “love” ao contrário, mas soa como “evil”, que significa mau. “Killing Strangers”, faixa de abertura, segue a mesma linha com outro recado pontual: “estamos matando estranhos / então não precisamos matar quem amamos”.

Em “Third Day of a Seven Day Binge” aparecem levadas sutis de guitarra sob o verso: “prefiro ser sua vítima do que estar com você”.

Em todo o álbum, apesar de uniforme, a voz de Manson soa como a de um doente em súplica – ainda que ele se distancie da fase volúvel, sendo grotesco em sussurros ou exagerado em gritos ao léu.

No fundo, “The Pale Emperor” parece fazer das dores de Marilyn Manson um processo de renascimento que ainda não se definiu pela vida ou pela morte de sua própria música – e que talvez precise se alimentar dos dois para sobreviver. Como ser fiel à contradição de existir por aquilo que te nutre e te destrói ao mesmo tempo.

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