Neurocientistas já conseguem prever comportamento futuro

Artigo publicado na “Neuron” levanta discussão ética sobre o tema

iG Minas Gerais | Raquel Sodré |

Previsão. Exame de ressonância magnética compara cérebro com boa resposta a tratamento (esq.) com outro que obteve pior resposta
John D. E. Gabrieli/Divulgaçã
Previsão. Exame de ressonância magnética compara cérebro com boa resposta a tratamento (esq.) com outro que obteve pior resposta

Prever o futuro não é mais coisa de cartomantes, tarólogos e ciganas que leem a mão. Segundo um novo artigo do pesquisador John D. E. Gabrieli, que dá aulas de ciências e tecnologias da saúde no Massachusetts Institute of Technology (MIT), as ferramentas que a ciência possui hoje já são capazes de prever como será o comportamento das pessoas no futuro.

Segundo o pesquisador, as técnicas e os métodos da neurociência atual permitem que diversas medidas da função cerebral – chamadas de “neuromarcadores” – prevejam, por exemplo, o rendimento escolar de uma criança, em qual matéria terá dificuldade e também se terá tendências para o vício ou para o crime.

“Além de detectar lesões cerebrais, agora sabemos que podemos medir variações entre a anatomia e o funcionamento cerebral das pessoas em resposta a uma tarefa ou a um estímulo, e essa variação corresponde ao comportamento no futuro”, explica Gabrieli, em entrevista a O TEMPO.

As diferenças na função cerebral também podem dizer quais pacientes portadores de problemas mentais têm maior probabilidade de se beneficiar de certo tipo de tratamento. O pesquisador aponta que, em outros estudos, conseguiu-se prever tudo, desde o ganho de peso dos participantes até o uso de protetor solar.

Ética. Todo esse poder que a tecnologia concede à ciência gera sérias questões éticas. Uma coisa é a ciência ter a capacidade de fazer essas previsões. Outra é a ciência dever fazê-las.

O próprio Gabrieli reconhece que há um longo caminho e uma grande discussão pela frente, para que as tecnologias não sejam utilizadas de modo a prejudicar mais do que ajudar. “Fazer com que não tenhamos uma realidade como a mostrada no filme ‘Minority Report’ é uma preocupação ética real, e, quanto mais sabemos, mais precisamos pensar sobre essas preocupações éticas”, reflete.

Por outro lado, ele lembra que, nos Estados Unidos, o sistema judiciário já tem uma série de pedidos de advogados, juízes e promotores por previsões de comportamentos do réu. Todas elas feitas subjetivamente por especialistas. “Essas decisões são tão subjetivas que dependem da hora do dia em que o processo foi ouvido. As evidências, hoje em dia, são que imagens cerebrais são mais precisas em prever o comportamento de um criminoso reincidente do que outros tipos de informação usados”, defende Gabrieli.

Ele se mostra otimista e foca no serviço que esse uso da tecnologia poderá trazer. “A questão mais importante, eu acho, é quanto poderemos melhorar a vida das pessoas. Por exemplo, pacientes com distúrbios psiquiátricos frequentemente tentam um tratamento que funciona em metade dos portadores. Se esse tratamento falha, aí ele passa a receber outro tratamento. Se os neuromarcadores puderem prever que o primeiro tratamento não funcionará para aquele paciente, ele poderá receber diretamente o que for mais eficiente para ele”, pontua o pesquisador.

Pesquisa

Dados. O artigo de John D. E. Gabrieli foi publicado na última edição do periódico “Neuron”. O trabalho é uma revisão bibliográfica de dúzias de pesquisas sobre os avanços da neuroimagem.

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