Entre agruras dos musicais

Cria-se um musical em três meses. Não tem gente colocando dinheiro nisso, querem aplicar no que já está pronto.

iG Minas Gerais | Luciana Romagnolli Especial para O Tempo |

Marília Pêra, Cláudia Raia, Jorge Fernando, Wolf Maia são pessoas das antigas que faziam musical na minha geração.
Arquivo pessoal
Marília Pêra, Cláudia Raia, Jorge Fernando, Wolf Maia são pessoas das antigas que faziam musical na minha geração.

Para quem se lembra da novela “A Viagem”, ela fazia a personagem Naná e contracenava com Nair Belo. Profissional do teatro musical desde os 19 anos, Keila Bueno vem a Belo Horizonte para dar um workshop inspirado em “Chicago” e trabalhar na produção de “Magic – Na Linha do Horizonte”, montagem que inicia as ações do Circuito BroadUai para 2015 e 2016. 

Qual o seu envolvimento com o teatro musical hoje? Está em algum projeto ou espetáculo? No ano passado, a última peça foi “Elis, a Musical”. Fiz a mãe, em São Paulo. E agora nada. Estou dando alguns cursos, fiz uma audição para o “Mary Poppins”, são vários testes.

Dá para viver de teatro musical no Brasil?

É complicado porque você fica em cartaz por muito tempo e, se seu perfil não se encaixa nas próximas audições, porque precisa de uma técnica específica ou porque precisa dançar mais, você fica desempregada. Sobrevive dando cursos, aulas, com trabalhos paralelos. Tem fase de emendar um trabalho no outro. É difícil como toda carreira no meio artístico.

Você vem a Belo Horizonte para uma das primeiras ações do Circuito BroadUai, que prepara espetáculos para apresentação na capital mineira em 2015 e 2016, produzidos pela DrammAto Kostás e Scalla Entretenimento. Como será o seu trabalho na cidade?

Eu vou dar um curso (o workshop intensivo de férias “Chicago”), ensinar algumas coreografias do musical “Chicago” e dar um treinamento sobre como dançar e cantar ao mesmo tempo. Depois vamos fazer uma audição para um show (“Magic – Na Linha do Horizonte”) que Daniel (Kostás) esta montando. Eu li o primeiro roteiro. A gente vai contar a história da cidade, com muitas canções de musicais da Broadway e algumas brasileiras.

Você já havia realizado um workshop de dança para teatro musical em Belo Horizonte em 2010. Percebe mudança na cena mineira de musical deste então?

Não tenho acompanhado, mas sei que tem muitos bailarinos, gente cantando, bastante atores. É só juntar um pouco as coisas – cantar, dançar e interpretar –, porque material humano tem, sim.

Mais amplamente, como você avalia a produção do Brasil no momento, comparada com cinco, dez anos atrás?

A gente está crescendo muito, fazendo muitas produções brasileiras. Sempre teve musical, mas nunca foi muito forte. Com a vinda dos musicais norte-americanos, houve um despertar para esse lado. Marília Pêra, Cláudia Raia, Jorge Fernando, Wolf Maia são pessoas das antigas que faziam musical na minha geração e na anterior à minha.

Por que esse despertar só aconteceu com a chegada dos musicais aos moldes da Broadway e não se desenvolveu a partir de formas da tradução brasileira, como o teatro de revista, que também unia canto e dança? Não sei por que naquela época não se desenvolveu. Morei fora do Brasil, em Madri, por três anos (2004-2007). Acho o povo brasileiro bem conservador, demorou mesmo para entender (que valia investir no musical). Só quando viu um modelo que seguramente tinha dado certo, que é o norte-americano. É a valorização do que é de fora, o brasileiro tem muito isso. Agora o público está começando a ver o que pode acontecer, mas sempre teve gente fazendo musical. Eu comecei com 19 anos e esse povo já fazia. Já ouvi que o Wolf (Maia) “está se metendo a fazer musical”. Wolf fez produções musicais muito antes disso aqui, em 1988 fiz “As Noviças Rebeldes” com ele, tinha a Fafy Siqueira, a Totia Meirelles, a Cininha de Paula, todo esse povo de 40 a 50 anos que está fazendo teatro musical ainda fazia essa peça.

Qual foi o seu primeiro musical?

“Hair”, com 19 anos. Direção do Antonio Abujamra.

O Abujamra dirigia musicais no padrão da Broadway?

Ele fez, na verdade, a proposta de um musical futurista, em 1987, mas as músicas eram as mesmas. Passava-se num ano sem data, avançado.

E fez sucesso?

Acho que não ficou muito bom, mas era a ideia da época, não foi sucesso não. Ficou um tempo em cartaz, mas foi complicado.

Na sua opinião, a produção brasileira à semelhança da Broadway conseguiu atingir excelência técnica e artística?

Acho que sim. A gente tem um atraso, claro. Alguém (da Broadway) veio ao Brasil e comentou que o país tinha 30 anos de atraso tecnicamente para fazer musical, mas não significava que demoraria 30 anos para compensar. Isso em relação a som, cenário, pessoas. Está evoluindo muito rápido porque tem público, e quando tem público, tem dinheiro. Os norte-americanos passaram anos criando as músicas, aqui se monta musicais já prontos. Aqui é muito rápido, a gente já peca aí. Sem dinheiro, cria-se um musical em dois ou três meses, é pouco tempo. Compor música para obras teatrais leva tempo e não tem gente colocando dinheiro nisso, querem aplicar no que já está pronto.

Como está a formação dos artistas de teatro musical no país hoje, é suficiente?

Os meus alunos de dez anos atrás estão todos em cartaz. Já estou vendo esta outra leva completamente preparada. A gente foi mais na raça, a minha geração, na faixa dos 50 anos de idade. Agora tem muita gente fazendo aula de canto.

Qual sua opinião sobre as críticas a musicais que reproduzem modelos internacionais?

Há espaço para a criação? Não faço uma crítica, não penso assim. Só penso que se faz esse entretenimento porque o show dá dinheiro. A gente ainda precisa de muito apoio de lei (de incentivo), não tem o público que eles têm. Em Nova York, tem público do mundo inteiro indo assistir. Eles ficam com um espetáculo por cinco, dez, 20 anos. A gente fica um ano e meio, seis meses, às vezes. Adoro os norte-americanos, acho lindo. Acho também lindo os brasileiros.

Você já trabalhou em produções fora do país?

Não consegui. Dei aulas, cursos, coreografei. Mas, como atriz, tive vários problemas: já não era tão nova, tinha 37 anos, abria a boca e tinha sotaque, era classificada como estrangeira, a minha altura... Lá, pedem às bailarinas de musical que sejam mais altas.

Outro dia, entrevistei a diretora musical de um espetáculo, e ela afirmou que, nas produções feitas no país, em geral, a grandiloquência dos arranjos e a movimentação corporal refletem pouco as tradições musicais e rítmicas brasileiras. Você concorda? Não acho problema em nada. Acho que, sim, “Cazuza” era bem brasileiro, “Elis” era bem brasileiro. Marília Pêra e Cláudia Raia sempre fizeram musicais com coisas daqui e de fora. Mas pode ter mais.

Você trabalhou com Cláudia Raia em “De Pernas pro Ar”. Qual a diferença entre fazer um musical dela e um da Broadway?

A Cláudia gosta de abrasileirar. Mesmo quando faz o musical norte-americano. O “De Pernas para o Ar” tinha músicas norte-americanas dentro de uma história dela. Ela é muito profissional, não tem diferença. É mais do que a gente pode fazer de cenário – eles têm muito dinheiro aplicado nisso.

Cria-se um musical em três meses. Não tem gente colocando dinheiro nisso, querem aplicar no que já está pronto.

Para quem se lembra da novela “A Viagem”, ela fazia a personagem Naná e contracenava com Nair Belo. Profissional do teatro musical desde os 19 anos, Keila Bueno vem a Belo Horizonte para dar um workshop inspirado em “Chicago” e trabalhar na produção de “Magic – Na Linha do Horizonte”, montagem que inicia as ações do Circuito BroadUai para 2015 e 2016.

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