O manual aliado ao tecnológico

Autores e editores retomam procedimentos e formatos mais artesanais

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

Polvilho edicoes
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Ciro Trevisan mantinha guardado na gaveta o romance “Agulhada na Bunda”, que no fim do ano passado veio a público. Considerado pelo belo-horizontino um “livro sobre a vingança”, a obra não saiu por meio de uma editora, como aconteceu com “O Devenir”. Seu título de estreia, inclusive, chamou a atenção da crítica pela qualidade e pela idade do autor, naquela época com 17 anos.

Desta vez, ele resolveu pagar do próprio bolso a nova edição, que foi diagramada no programa de computador Word e tem um acabamento manual: as páginas são costuradas com um fio de barbante tingido de roxo.

“A minha ideia era fazer algo com o menor custo possível, mas que fosse apresentável e bonitinho. Mesmo diagramando o livro no Word, isso não é algo tão fácil de fazer, e a minha namorada deu uma ajudinha”, conta Ciro Trevisan.

O caso aponta um tipo de atitude cada vez mais comum, especialmente no cenário das publicações independentes. Autores têm se alternado no papel de editores e combinam procedimentos que se valem de diversas técnicas, das tradicionais às mais recentes, permitidas pela disponibilidade de tecnologias.

Para colocar a obra em circulação, continua valendo a rede dos Correios, as feiras de publicação cada vez mais constantes, ou, às vezes, basta ter à mão uma bicicleta, como a que Trevisan utiliza para entregar pessoalmente os exemplares guardados em sacos de pão.

“Teve um dia em que eu fui a uns sete bairros da cidade de uma só vez”, frisa ele, que afirma ter se inspirado no universo dos fanzines para conceber o formato do seu novo livro. “Eu já tinha lido um zine que circulava dentro de sacos de pão e achei a ideia legal e barata. É possível comprar quilos desse papel por um custo pequeno. Um dos maiores gastos que tive foi com um furador de papel que atravessa 50 folhas”, diz o escritor.

Além da combinação entre o exercício de práticas artesanais com o uso de recursos tecnológicos, o foco em pequenas tiragens é algo que permeia a atual geração de livros e zines, em fase de multiplicação no país. No caso de Trevisan, ele revela que imprime dez volumes de cada vez e não produz estoques em casa. “O lucro é muito pequeno, e, como eu pago tudo com o meu dinheiro, acho mais fácil evitar, por exemplo, fazer 20 versões de uma vez, porque isso poderia demorar mais para vender”, avalia Trevisan.

Criador do aclamado selo Demônio Negro, o jornalista, editor e tipógrafo Vanderley M. Mendonça segue o mesmo princípio. Ele aposta em edições de pouca tiragem, e, como trabalha só, essa é um maneira de ter mais controle sobre a produção. Mendonça também observa que há um interesse crescente nesse nicho, e o desenvolvimento das feiras centradas no segmento exercem um papel decisivo.

“Elas são resultantes da ascensão desse novo tempo, em que é possível fazer arte gráfica mesclando impressão digital, artesanal e acabamentos manuais. Há um ressurgimento de técnicas de impressão rudimentares com novos materiais. Eu, por exemplo, ando utilizando tipos de borracha, gravados com laser, numa impressora tipográfica manual. E alguns artistas têm experimentado muito em todas as partes do Brasil”, pontua Mendonça.

Para Caio Otta, que mantém ao lado da artista visual Ana Rocha a plataforma Polvilho – pioneira na realização de feiras de livros independentes em Belo Horizonte –, o ano passado marcou um momento relevante para esse tipo de publicação. A seu ver, houve um avanço na organização, e profissionais se uniram ainda mais para realizar outros eventos que vêm ampliando a possibilidade de encontros entre público, autores e editores de livros.

“Não só em Belo Horizonte, mas em várias cidades, como Rio de Janeiro, São Paulo, e em outras fora desse eixo também, se nota isso. É algo crescente e estratégico, revela a necessidade de busca por uma atuação alternativa, já que nos posicionamos de uma forma diferente do universo editorial convencional”, acrescenta Caio Otta.

Ana Luiza Fonseca, curadora da Feira Tijuana, uma das primeiras do país, iniciada em 2009 pela Galeria Vermelho, reflete ainda sobre a retomada do traço artesanal como um reflexo da cultura contemporânea.

“Estamos tão ligados ao virtual, e vários tipos de conteúdos se adaptam tão bem ali que, quando chega a hora de imprimir algo, esse gesto se torna um marco, um evento, de fato, importante. Acho que isso estimula um cuidado maior que leva a criações mais artesanais”, observa Fonseca.

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