Mortos-vivos

iG Minas Gerais |

acir galvao
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Imagine acender a luz e se deparar com um fantasma sorrindo para você. Não, eu não ando tendo nenhuma experiência sobrenatural. O fantasma a que me refiro é o pior da espécie... O fantasma do passado. Uma vez alguém me disse que a pior dor é a de uma morte súbita, seja essa a morte de uma pessoa ou de um relacionamento. É verdade. Para a morte real, só nos resta aceitar a tristeza, vivenciá-la ao máximo até que o tempo se encarregue de desbotar as lembranças e deixar a tristeza dar lugar à saudade. Quando é um amor que morre subitamente, não é tão simples assim... A pessoa morreu em seu convívio, mas insiste em viver em seu coração. Como na morte real, a lembrança dela é despertada a cada minuto, seja por uma música, um lugar, um cheiro, uma roupa. Mas a diferença é que esse fantasma está vivo em algum lugar e apenas escolheu não te deixar mais fazer parte do seu mundo. Daí o problema. Cabe só a você entender e aceitar a nova condição, e, apenas com consentimento próprio, as cinzas desse amor serão levadas pelo vento. Às vezes demora, mas um dia você percebe que aquela pessoa não ocupa mais seu pensamento em tempo integral. As lembranças vão diminuindo gradualmente, você passa por outras situações, conhece gente nova, e, então, aquela se torna passado. O que pode acontecer é esse fantasma voltar, muito tempo depois, para assombrar o presente e colocar à prova a sua força. Muitas vezes é um choque. Quando a terra que foi jogada por cima daquele defunto não foi suficiente, ou quando aquele caixão exigiu muita força para ser fechado, as chances de recaídas são grandes. Como o tempo já desbotou a parte ruim, tudo o que vem à mente são as qualidades da pessoa e os momentos felizes vividos com ela. É fácil perdoar depois que se passa muito tempo. Nessa hora, o mais importante é tomar um remédio para a memória, recorrer a um diário daquela época ou a um amigo que ouviu todas as lamentações. Os fantasmas voltam, ilesos, mas é quase certo que com eles voltem também o motivo que os fez morrer. A menos que as duas partes tenham ressuscitado como novas pessoas, é bem provável que a história se repita. Para que você não tenha que gastar novas lágrimas com o mesmo morto, o melhor é conversar bastante sobre os antigos erros e conferir se a pessoa está mesmo disposta a fazer tudo diferente. Se houver qualquer sinal de que isso vai render um novo enterro, o melhor é se contentar com as fotos antigas, que já estão curtidas pelo tempo e menos dolorosas. Dê adeus à pessoa antes que você tenha que pagar novamente por um filme que já viu. Com tanta película inédita em cartaz, seria um desperdício. O melhor é mudar de gênero e trocar o filme de fantasmas por uma comédia romântica, que tem muito mais chances de terminar com um final feliz. 

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