Momento pin-up das trans

Calendário “Geni”, produzido por ex-alunas da UFMG em projeto de conclusão de curso, aborda questões de gênero

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

calendario

Nos duelos de dança da festa Dengue, que desde 2013 agita a noite belo-horizontina com uma disputa de “vogue” (estilo coreográfico conhecido por imitar poses de capas de revista de moda), a artista performática Cristal Lopez já foi alçada ao status de musa. Agora, é ela quem abre o calendário “Geni: Um Ensaio Fotográfico com Corpos Transitados”, produzido pelas publicitárias Mariana Moraes e Daniella Rodrigues e atualmente disponível para download gratuito na internet.

Desenvolvido como projeto de conclusão de curso na faculdade de Comunicação Social da UFMG, o trabalho revisita a figura das modelos pin-up do século XX, que são interpretadas em fotografias por Lopez, Valentina, Bárbara Macedo, Dolly Piercing, Dhully Fantine, Fabíola Martins, Gisella Lima, Hagata Lafa, Transex Lara BH, Laura Matias, Raphaela Ramalho e Tiffany Maria.

Em comum, todas as participantes compartilham a sua experiência com a identidade trans, que, no caso delas, transita do universo masculino para o feminino. “Eu achei essa ideia ótima e gostei muito de trabalhar nesse projeto porque ele é uma forma de chamar a atenção da sociedade para o fato de que nós, pessoas trans, também somos seres humanos”, frisa Cristal Lopez. Ela elogia a iniciativa: “O resultado é genial”.

Uma das realizadoras do calendário, Mariana Moraes conta que a criação foi desenvolvida ao longo de 2014, motivada por dois principais interesses: a vontade de lidar com a linguagem da fotografia e de abordar algumas questões em torno da temática da transexualidade.

Tendo a pin-up como referência, ela explica que escolheu cada uma das participantes justamente a partir da identificação delas com o gênero feminino. “Nenhuma das retratadas precisou se apresentar como uma mulher trans, mas era fundamental essa proximidade. A intenção de optar apenas pela presença de modelos transexuais tem a ver também com a ideia de retratar um corpo que está em trânsito”, afirma Mariana.

Ela diz que sublinhar essa condição foi uma saída encontrada para abarcar um campo maior de possibilidades dentro do espectro da sexualidade. “A questão das identidades é algo delicado e complexo. Dentro do universo trans, por exemplo, nós percebemos diversas particularidades. Há quem se identifique também como travesti, outras se dizem mulheres. Às vezes, mulher trans, ou apenas prefere referir-se sobre si mesma como alguém do sexo masculino que gosta de vestir roupas femininas. Focar nesse recorte dos corpos em trânsito foi uma forma de tentar dar conta dessa abrangência”, diz.

Outro objetivo ressaltado por ela é ampliar a visibilidade de um grupo de pessoas cotidianamente alvo de violência e de preconceito. “Há uma rejeição muito forte à condição de vida delas. Existe na sociedade uma dificuldade grande de se entender que elas têm os mesmos direitos que todo mundo, e o calendário, nesse sentido, é uma maneira de abrir espaço para essas pessoas se expressarem”, observa Mariana.

Sobre o processo de criação do trabalho, ela ressalta como a convivência com as modelos foi importante para toda a equipe envolvida. “Quando começamos isso, nós não tínhamos dimensão do quanto a tarefa seria importante para elas. Nós achávamos que íamos receber uma contribuição maior do que realmente darmos algum retorno. Mas durante as fotos percebemos que elas estavam muito felizes de fazer aquilo e tudo funcionou do jeito que a gente queria”, reflete.

Para Cristal Lopez, um ponto positivo foi conhecer semelhantes com quem pode compartilhar experiências. “Algumas eu já tinha contato, como a Valentina e a Dolly. Outras, eu encontrei pela primeira vez no projeto. Isso foi ótimo, pois quanto mais amigas trans melhor”, declara a modelo.

  Saiba mais

O calendário “Geni: Um Ensaio Fotográfico com Corpos Transitados” pode ser acessado e baixado gratuitamente clicando aqui. Na página, há também vídeos de making off e fotografias que mostram os bastidores da produção.

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