Tirania ou libertação?

Serviços como o Kindle Unlimited levantam questões a respeito dos caminhos da autopublicação de livros online

iG Minas Gerais | David Streitfeld The New York Times |

E-books modificam o cenário para escritores independentes, remodelando as formas de negócio existentes
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E-books modificam o cenário para escritores independentes, remodelando as formas de negócio existentes

Nova York, EUA. Um argumento quase irrefutável a favor dos serviços “à la carte” de música, vídeo e livros é que encorajam o público a conhecer novos nomes e, no fim, desenvolver uma relação mais profunda com alguns deles. Você pode ouvir músicas inéditas porque não há custo adicional, talvez vá ao show e, quem sabe, compre a camiseta. O artista é recompensado no fim do processo e não mais no início, como era antes.

O lado negativo – que ganhou notoriedade graças à eloquência de Taylor Swift – é o fato de ensinarem às pessoas que não vale a pena pagar por cultura online. E o resultado é que os profissionais têm que batalhar para ganhar com algo além de sua arte – quem sabe aquela camisetinha? Se não quiserem ou não puderem interagir com os fãs, acabam prejudicados.

As editoras tradicionais relutam em entrar de cabeça nos serviços de leitura por assinatura por temer que os livros individuais, seus autores e seu próprio trabalho sejam desvalorizados – mas aqueles que publicam suas próprias histórias, os chamados independentes, muitos dos quais em início da carreira, não têm muito o que perder. Estão tentando subir na cadeia alimentar enquanto nomes estabelecidos tentam não cair.

Apesar do nome, os independentes são forçados a depender, em maior ou menor grau, da Amazon – compelida a criar seu próprio serviço “à la carte”, o Kindle Unlimited, para se manter competitiva frente a startups como Oyster e Scribd. Ele foi inaugurado em julho passado e, nos seis meses desde então, o volume de seu material aumentou de 600 para 700 mil, o equivalente a quase todo o que havia disponível no setor eletrônico do Kindle pouco depois de ser introduzido, em 2007.

A grande maioria das obras do Kindle Unlimited é autopublicada. Na verdade, é um dos maiores experimentos de reformulação da leitura jamais assumidos. Será que o serviço vai criar uma nova geração de leitores, como a Amazon espera, ou vai afundá-los em trabalhos ruins? Vai forçar os independentes a uma linha de produção tirânica e promover apenas alguns poucos que merecem destaque, sistema muito parecido com o antigo? Ou representará um caminho de libertação? Essas questões estão agitando a comunidade.

O Kindle Unlimited pode mudar, mas não vai desaparecer. A notícia, divulgada no início de janeiro, de que o Scribd tinha recebido uma injeção adicional de US$ 22 milhões, elevando o total do investimento para US$ 48 milhões, não vai passar despercebida à Amazon – afinal, o concorrente começou a fornecer seu serviço há pouco mais de um ano e garante que o número de assinantes subiu 31%.

Kathryn Le Veque já publicou 44 livros de ficção desde 2012. Seu público era basicamente o da Amazon, o que significa que, quando o Kindle Unlimited foi criado, ela foi forçada a fazer dar certo ou desistir. Até agora, vem conseguindo se ajustar.

Mas, primeiro, aqui vão alguns fatos: Kathryn nasceu, cresceu e ainda vive no sul da Califórnia. Hoje com 50 anos, escreve desde os 13 e começou a ser rejeitada pelas editoras tradicionais quando tinha 28. Seu cenário favorito é a Inglaterra medieval do que chama de “sub-subgênero de romance histórico”. Seu primeiro trabalho despontou na Amazon em maio de 2012 – e levou três meses a partir daí para poder pedir demissão do trabalho de assistente executiva.

Ela conta que, antes do Kindle Unlimited, vendia 6.000 livros/mês. Como suas obras são longas, estipulou o preço de US$ 4 para mais. No momento, o Kindle Unlimited paga US$ 1,39 por cada livro que é emprestado e lido; para fazer o pessoal passar a comprar, Kathryn chegou a baixar alguns de seus preços para até US$ 0,99. Resultado: triplicou a movimentação em relação ao período anterior ao Kindle Unlimited e seu lucro anual subiu 50%.

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