Um Porto, no Porto

iG Minas Gerais |

Quem nunca provou uma “francesinha do Porto” não sabe o que está perdendo. Criado nos anos 40 por um chef que havia estagiado na França, o prato é uma adaptação portuguesa do croque monsieur, em que entre duas fatias de pão de forma são colocados queijo, presunto e linguiça, cobertos com um ovo com gema mole e mais queijo, sendo, enfim, gratinado e servido com um molho ligeiramente picante.

Os portugueses dizem que cada restaurante tem seu molho secreto, o que é compreensível num país que adora segredos – o dos pastéis de Belém, por exemplo, é supostamente conhecido apenas por três chefs, que fazem a sua parte da receita sozinhos num quarto trancado e só a revelam no seu leito de morte para o “chef herdeiro” da receita. São, naturalmente, segredos que todo mundo sabe, mas finge não saber, o que aumenta a mitologia de suas receitas clássicas.

O molho da francesinha é uma delícia. São três horas de cocção começando com um refogado de cebola, alho e tomate amassado, seguido pela inserção de aparas de carne, posteriormente, deglaçado com conhaque ou uísque, acrescido de cerveja e vinho branco, água e ervas aromáticas, segredo a mim contado ao pé do ouvido pelo Zé Antônio do Douro Sentido (podem contar para ele que eu contei, mas faltou o “ingrediente secreto”).

Quem nasce na cidade do Porto é chamado de tripeiro – a dobradinha ao Porto é a maior tradição gastronômica da cidade. Mas nem só de miúdos vive a gastronomia local. A cidade surpreende com casas de pegada contemporânea, em ambientes bem-montados e modernos, inclusive dentro da cidade velha.

História

Porto faz uma oposição clássica a Lisboa, tendo sido historicamente uma cidade mais liberal, com a maior universidade de Portugal e longe da influência direta da monarquia. O centro histórico mantém seu clima, mas as regiões da foz velha e hoje da foz nova – onde o rio Douro deságua no Atlântico – é o coração da nova cidade, com uma arquitetura contemporânea e restaurantes cosmopolitas que poderiam estar em qualquer grande cidade do mundo.

O Cafeína é um dos melhores restaurantes da cidade (na foz velha). Ele é elegante, sofisticado, com uma cozinha irrepreensível e autoral. Quem espera pratos portugueses clássicos talvez se decepcione um pouco, mas a cozinha é ótima, inovadora e com um pé na tradição.

O italiano Porta Rossa é ótimo também, com as esperadas opções de massas, risotos e pizzas. Tem instalação arrojada, ingredientes de primeira e execução perfeita. Na cidade velha, em frente à Torre dos Clérigos – recém-aberta ao público em dezembro passado –, há um pequeno shopping com quatro bons restaurantes igualmente modernos, ótimos preços, muitos vinhos portugueses em taça e uma boa cozinha.

Suprassumo

A grande glória da cidade, como todos sabem, é o vinho do Porto, que, na verdade, não tem nada a ver com o Porto. O vinho é produzido no vale do rio Douro acima e vinificado e engarrafado, sendo a maior parte ainda em Gaia. É assim que eles a chamam, afinal, não é mais uma Vila Nova, e sim uma cidade do outro lado do rio.

Para quem adora um vinho do Porto, a vista de Gaia à noite é deslumbrante, com os letreiros das casas mais famosas iluminados e em destaque, como Ferreira, Ramos Pinto, Sandeman, Neipoort e Graham's, sendo essa última é o lugar de onde saíram dois dos melhores vinhos do mundo segundo a revista “Wine Spectator”, em dezembro passado. O tinto Cryseia 2011 ficou em terceiro lugar, e o Porto Downs Vintage 2011, em primeiro, como o melhor vinho do mundo em 2014.

Os preços, claro, subiram de € 90 para € 250 (no caso do Porto). Um amiga nativa da cidade me disse que não havia mais o vinho à venda, que ela teria comprado o penúltimo, mas na Grahmas ainda se encontram algumas garrafas do Porto. Talvez fosse uma mentira ou quisesse fazer charme, mas, como uma boa portuguesa, ela queria mesmo era manter o fim do estoque em segredo.

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