Mito, violência e encontros

iG Minas Gerais | Priscila Brito |

Guto Muniz
"Maxilar Viril", inspirado em conto de Eduardo Galeano e em massacre de camponeses do Peru, celebra os dez anos da Maldita Cia. de Investigação Teatral e chama atenção para a América Latina.

O fato é o massacre promovido pelo grupo de guerrilha peruano Sendero Luminoso contra um grupo de camponeses na década de 1980 que deixou 69 mortos. A alegoria é o conto “História do Lagarto que Tinha o Costume de Jantar suas Mulheres”, no qual o uruguaio Eduardo Galeano dá sua versão fantástica para o episódio. O ponto de contato entre as duas narrativas é o espetáculo “Maxilar Viril”, da Maldita Cia. de Investigação Teatral, em cartaz no CCBB de sexta (30) a segunda (2), dentro da programação do Verão Arte Contemporânea (VAC).

Partindo da relação entre figuras quase mitológicas de uma mãe e seu filho de impulsos criminosos, a montagem traz a violência que vitimou os camponeses peruanos e que foi objeto de ficção de Galeano para o contexto urbano, atualizando-a.    “É um documento, uma proposição política e um questionamento sobre o que a arte pode dizer sobre a violência”, comenta o diretor e dramaturgo Amaury Borges.    A montagem também sugere paralelos com a realidade brasileira. “Fazemos essa homenagem ao acontecido e estabelecemos uma relação com a Comissão da Verdade daqui do Brasil. Hoje a Comissão da Verdade do Peru começou a julgar esse crime e algumas pessoas já foram presas e condenadas, enquanto a comissão daqui não condenou ninguém”, completa.   Dos paralelos entre Brasil e Peru são colocados questionamentos mais amplos. Na montagem, a história se passa no distrito de Santiago de Lucanamarca, mesmo local do massacre de camponeses, e a intenção não foi apenas conservar o local do episódio original. “Alguém já falou que o Brasil está de costas para a América Latina e a gente está tentando rever essa relação. Queremos viajar para países latinos com esta peça”, afirma o diretor.   Pesquisa Parte das comemorações dos dez anos da Maldita, “Maxilar Viril” é o que o grupo define como “concerto épico-dramático”, uma nova frente na pesquisa de linguagem da companhia. “A gente cria uma rádio dentro do espetáculo para veicular músicas, temos dois músicos ao vivo fazendo a trilha sonora. Tem todo esse trabalho de mergulhar o espectador em um ambiente sonoro e imagético”, descreve.   A peça também dá prosseguimento ao trabalho da companhia de ocupação de espaços e de inserção do espectador na cena.    O local de apresentação é um palco tradicional e não um dos muitos espaços alternativos que a Maldita propositalmente já ocupou – como bares e cinemas abandonados. Mesmo assim, há uma provocação na relação espectador-espaço. O público é convidado a entrar no teatro do CCBB pelos fundos. “Isso modifica a relação do público com o espaço, faz o espectador lançar um olhar diferente para o teatro. A gente acredita muito no teatro como a arte do encontro, da celebração das relações com o espectador. Ele faz parte da encenação também”, conclui Amaury.   Maxilar Viril CCBB (praça da Liberdade, 450, 3431-9400). De sexta (30) a segunda (2), às 20h. R$ 10 (inteira)

 

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave