As proximidades perigosas

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Baseado em uma história real,
Sony Pictures/Divulgação
Baseado em uma história real, "Foxcatcher", que estreia, narra a trajetória do campeão olímpico de luta grego-romana

Existe uma luta-treino entre os irmãos Mark e Dave Schultz (Channing Tatum e Mark Ruffalo) logo no início de “Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo” (confira roteiro nesta página), que não só define claramente a personalidade dos dois personagens, como sintetiza toda a trama que vai se desenrolar nas próximas duas horas. Mark faz de tudo para sair do domínio e da sombra do irmão mais velho, centrado e emocionalmente bem resolvido. Sem conseguir, ele toma atitudes impulsivas e inconsequentes que vão terminar de forma sangrenta.

Além disso, o diretor Bennett Miller encena a luta greco-romana como essa dança em que deixar o parceiro se aproximar é necessário para dar o bote, mas ao mesmo tempo pode levar à derrota. E o filme, que estreia hoje, é essencialmente sobre essas “proximidades perigosas”: a ideia de que é impossível viver sem abrir a guarda para alguém, mas quanto mais perto deixamos que o outro chegue, mais fatal é o golpe que ele pode desferir.

Baseado em fatos reais, o longa acompanha o lutador Mark (campeão olímpico em 1984) que, às vésperas do mundial de 1987, foi convidado pelo milionário John du Pont (Steve Carell) para iniciar um centro de treinamento na fazenda que dá título ao filme. Mark, que tem a maturidade social e a fragilidade emocional de uma criança, precisa sair da sombra do irmão para se afirmar como adulto e como lutador – e encontra em Du Pont uma figura paterna para substituir Dave. Já o milionário é um solitário excêntrico tentando usar sua paixão como lutador frustrado para conseguir a aprovação da mãe (Vanessa Redgrave, ótima).

O encontro deles é como dois vazios tentando preencher os buracos emocionais um do outro. Eles se encaixam, mas só tornam seus problemas ainda maiores. Se a relação entre os irmãos Schultz se define na dança da luta, a dinâmica codependente entre Mark e du Pont é a corte de acasalamento entre predador e presa. O milionário gosta de ser chamado de “Águia”, mas se assemelha a algo mais pérfido e traiçoeiro, uma aranha tecendo uma teia para a mosca indefesa que é o inseguro Mark.

Essa autopercepção distorcida e megalômana é o motivo pelo qual Miller enxergou du Pont no comediante Steve Carell. O milionário é uma versão mais sombria e psicopata do Michael Scott que ele viveu por anos em “The Office” – fazendo de “Foxcatcher” a definição perfeita do “seria cômico se não fosse (assustadoramente) trágico”. E se o ator rouba a cena com essa postura do predador emocional, Tatum está tão bem quanto o colega, usando sua própria insegurança diante dos grandes nomes do elenco em favor do personagem. Ruffalo, por sua vez, representa a razão e o equilíbrio emocional entre esses dois polos altamente disfuncionais.

É um triângulo de características únicas que o filme não tenta simplificar ou conformar às regras do gênero. E é isso que torna o longa de Miller tão incômodo: ele pergunta muito mais do que quer responder. A cada cena, é como se o diretor questionasse o espectador, “o que você acha que acabou de acontecer ? “O cineasta se comporta como um investigador: cada cena é uma pista que aponta para uma explicação diversa – sexual, patológica, psicanalítica – e ele pede a ajuda do espectador para entender o mistério.

A quase ausência de trilha musical, com exceção do terceiro ato, deixa clara essa abordagem que não quer direcionar o público ou dizê-lo o que pensar ou como se sentir. E é isso que torna “Foxcatcher” uma experiência nada fácil, já que estamos acostumados a longas como “O Jogo da Imitação” ou “Menina de Ouro”, que nos conduzem pela mão a cada corte ou acorde da trilha. O filme de Miller tenta entender os sentimentos de personagens que, não só não sabem expressá-los a não ser pela violência e pela luta, mas muitas vezes não entendem eles mesmos suas próprias emoções. Como o filme poderia? Essa é a beleza da dança.  

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