Bate debate 23/1/2015

iG Minas Gerais |

Não dê ouvidos ao infeliz   Marcelo Dias Costa Escritor contagense   "|Antes que erga incólume a haste de seus tantos ‘ismos’, atenta à bandeira que te levanta”.   Com o novo ano mais um ciclo se inicia... Não, definitivamente isso não é tão óbvio quanto parece. Por isso resolvi escrever-te, por sermos um. E portanto imperativo é que lhe fale o que por agora é tão necessário: corra! Mas corra mil léguas contrárias a todo aquele que se mostrar um infeliz.  Não, neste novo ano não lhe dê ouvidos nem mesmo por um instante. Andam à espreita. Tênia solitária, buscam os que ainda guardam na cabeça qualquer filete de felicidade no mundo dos infelizes. Depois de usurpá-la, não pensem vocês que dividirão a mais ínfima ventura... Pois não vão.    Os infelizes se fazem companhia essencialmente na tristeza. Se consultarem na memória, encontrarão confirmação no que digo... Algum infeliz dividindo triunfos? Não, nem nunca. Infelizmente, já não enxergam qualquer dádiva nos dias. No verão, maldizem o sol, mas; se é tempo de chuva, é só murmuração.   Mas para que perceba a enorme diferença que há entre os infelizes, adianto-lhes pelo menos dois tipos, podendo haver muito mais que me falte o conhecimento: o primeiro é aquele que “está” infeliz. Esse, se possível, ainda cabe esforço, caso ainda risque algum sorriso que ilustre qualquer gosto por mudança. Podendo a esse ser até dada a mão, firmando o chão. Pé de apoio para que o infeliz não o leve junto. Em se tratando do segundo tipo, daquele que, por excelência, é um infeliz: orai e vigiai. Há mais de 2.000 anos a mais prudente recomendação.   Silêncio. Percebe que eles se organizam? Os infelizes ditam moda, tendenciam comportamento, emplacam diretrizes! E vendem melancolia como alta- costura. Aduladores da tristeza, há muito a trazem no colo como a um bichinho de pelúcia, portanto, nem por um só instante pense em tirar-lhes algo tão estimado. Não cometa esse terrível erro.    Ainda que te chamem Arthur, não suponha que seja você capaz de arrancar a espada cravada no peito de um infeliz.   Em vez disso, afaste-se. Escorra! Esquive!   Os poetas e poetisas, por exemplo, que se dobrarem à exaltação da lamúria, esses viverão a penúria. Correndo o risco, caso o tolo ou a tola firmem raiz nesse campo de passagem, de se tornarem também suplicantes crônicos. O que certamente levará os pobres a perder muito da qualidade de seus versos, agora, transformados em figuras maçantes, monotemáticas, comuns, bem comuns ao comportamento sorumbático dos que tanto lastimam.    Duro o que falo? Mas não tentem mesmo mudar a sorte de um infeliz. “Que mundo desigual, desumano e leviano!”, consternado, diz o Nosferatu. Mas, apesar do apelo convincente, comovente e tão necessário, não se engane, os infelizes não querem que nada mude, que não mude nada. O que querem, no fundo do poço, é justificar toda apostasia, apregoar desesperança e parasitar felicidade.   São capazes de tudo, menos de ser felizes.

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