“Ser gay é normal, entendam”

Rapper Rico Dalasam falou sobre seu início no rap, a homofobia que o gênero carrega e planos futuros

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Moda. Rico Dalasam investe em estilo diferenciado, mas diz que “rap não aceita qualquer coisa”
HenriqueGrandi
Moda. Rico Dalasam investe em estilo diferenciado, mas diz que “rap não aceita qualquer coisa”

Apesar de ser morador da periferia de São Paulo, Rico Dalasam não sucumbiu à realidade profetizada por Criolo de que, “na quebrada, a única certeza é que você vai ser nada”. Desde menino viu a mãe vender coxinhas fritas para bancar sua educação, enquanto o pai nunca esteve presente. Estudou inglês, fez aulas de violão, se formou na faculdade, mas nunca teve saco para a sala de aula. “Minha mãe e meu irmão mais velho queriam me dar oportunidades. Disso não posso reclamar”, diz. Em evidência ao trazer a estética e o discurso gay para o machista mundo do hip hop, Rico Dalasam conversou com o Magazine sobre suas primeiras influências musicais e composições românticas, os rolês em Nova York que abriram sua cabeça, a vontade de levar a temática gay ao maistream, além do preconceito que ele tem que superar dia a dia para fazer rimas sobre diversidade sexual. Entrevista Quais são as raízes de Rico Dalasam, como foi sua criação? Eu sempre morei em Taboão da Serra, com minha mãe, dona Ana Cecilia, e três irmãos (dois homens e uma mulher). Estudei em colégio particular a vida toda, por incrível que pareça. Minha mãe fazia dezenas de cartinhas para diretores, conversava pessoalmente com professores, buscando bolsas de estudos. Meu irmão Alexandre Silva fez papel de pai, dizia que eu precisava vivenciar experiências. Num colégio alemão uma vez, lembro que eu era o único negro. Já viu quem era o alvo de preconceito, né? E seu contato com a música? Ainda criança, eu ouvia rock e pagode nas duas rádios que pegavam para toda a comunidade, a Transcontinental e a FM 105. Só quando eu tinha uns dez anos, minha irmã pôs para rodar “Homem na Estrada”, dos Racionais, aí o rap me ganhou. Começou a compor logo depois disso? Mais ou menos. Com 12 para 13 anos, comecei a escrever rimas que cabiam numa batida seca do rap. Nessa época, eu absorvia muito hip hop já. Quando fui para as batalhas de MCs do Santa Cruz, vi que eu conseguia rimar como aqueles caras (Emicida, Projota, Rashid). Como resolveu botar para fora suas composições com estética gay? Eu cheguei a acreditar que teria que fazer versos sobre o gueto, a pobreza, sempre. Mas se eu colocasse um CD na rua igual o de todo mundo, igual do Projota e Rashid, eu não estaria sendo transparente com a minha narrativa, a minha história. E rap é mensagem e compromisso. Cada um passa a sua verdade; essa é a minha. Tenho a ideia de chegar ao maistream. O Brasil precisa encarar o gay como natural, não ficar a vida toda se preparando para isso. Ser gay é normal, entendam. E existe uma cena de rap gay no país ou ainda é um nicho machista? Você já sofreu preconceito dentro do rap? No Brasil, não tem cena. É o universo de homem homofóbico, às vezes o preconceito está em um olhar. Mas quem trabalha com isso te respeita muito no Brasil. Em Nova York já existe um espaço maior. Estive lá em agosto passado para o festival Afro Punk, e havia muitos gays rappers. Pensa em algum novo trabalho? Tenho uma ideia de um próximo trabalho com o nome de “Orgunga” – união das expressões orgulho negro e o orgulho gay –, que precisa ser resgatada.

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