Negro, rapper e... gay

Pioneiro em assumir a homossexualidade no hip hop no país prepara CD de estreia e introduz a diversidade no rap

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Potencial. Elogiado por Mano Brow e Criolo, Rico Dalasam grava suas canções no home studio do parceiro Filiph Neo
henrique grand/divulgação
Potencial. Elogiado por Mano Brow e Criolo, Rico Dalasam grava suas canções no home studio do parceiro Filiph Neo

Na noite de 22 de agosto do ano passado, um moleque franzino, vestindo calça jeans, blusa preta longa e boné camuflando sua face, abriu o show de comemoração dos 25 anos dos Racionais MCs para um público de 5.000 pessoas que não fazia ideia de quem ele era. Enquanto a galera balançava a cabeça, o rapper paulista Rico Dalasam rimava sobre o universo do “papai que não quer filho bicha” antes de pedir sem pudor: “boy, quero ser seu man”.

O que sempre pareceu inimaginável para o rap, começou a virar realidade desde o fim do ano passado, quando Jefferson Ricardo Souza, ou Rico Dalasam, causou repercussão no mundo do hip hop sob o rótulo de primeiro negro assumidamente gay rapper do Brasil, arrancando elogios de Criolo e Mano Brow.

“O rap é uma padaria, é um balcão. Quem tá dá do lado trabalhador (DJs, bboys, MCs etc) te respeita de alguma forma pelo trabalho. Quem tá do lado de lá, o público, nem sempre. Tem uma galera aí que não tem essa educação sobre diversidade e está escandalizada com a minha existência”, desabafa o rapper.

Morador do Taboão da Serra, na região metropolitana de São Paulo, Rico Delasam chama a atenção pelas vielas da periferia onde nasceu e mora até hoje. O visual arrojado incorpora saias tipo kilt, cabelão escovado, jaquetas extravagantes, chapéus, bolsas e bonés coloridos, combinando com meias descoladas, e aponta para um jovem ligado em consumo, que estudou moda e se formou em audiovisual, mas que não quer apenas atrair olhares pela aparência.

Aliás, Rico Dalasam está na labuta invisível do rap há pelo menos dez anos, marcando presença na batalha de MCs da estação Santa Cruz, que também serviu de palco para Emicida e Projota antes da fama. Mas, naquela época, o rapper não divulgava suas músicas com apelo gay e tampouco abusava das roupas alegres.

“Quando você é um negro e usa roupa de rap, você é um estereótipo muito normativo. Para as pessoas, está ótimo desse jeito. Alguém pode até te ver beijando um cara numa festa, que tudo bem porque você não é uma bichinha magrela e saltitante no rap. Para elas, ficar velado está ótimo. Mas aqui no bairro todo mundo sabe que desde os 10 anos eu customizo minhas roupas, todo mundo sabe que sou o filho da dona Ana com esse estilo. Só que num show de rap não é assim ainda”, revela.

Mesmo diante do preconceito, Rico Dalasam ouviu Mano Brow o chamar de “ousado” pelo clipe “Aceite-C”, single que defende a diversidade sexual com o refrão “outro não dá pra ser, sem crise, sem chance, uma dica: aceite-c”. Depois, Criolo também viu o vídeo onde o jovem rapper aparece envolto em luzes de neon, roupas de oncinha e poltronas acolchoadas em um estilo gângster norte-americano, e cravou: “este é o cara”.

CONCEITO. Apesar de não liderar visualizações instantâneas no YouTube, Rico Dalasam tem feito uma média de cinco shows por mês pelo Brasil – principalmente pelo circuito paulista. Ele está prestes a lançar o primeiro álbum, “Modo Diverso”, com cinco faixas inéditas, previsto para ser divulgado ainda neste mês de forma independente.

O álbum tem produção de Filiph Neo, produtor e multi-instrumentista de 25 anos que vai do baião ao rock, explorando beats eletrônicos variáveis. Ao lado dos beatmakers Casp, Tico Pro, Gedson Dias e Vini, ele encabeça a sonoridade das cinco faixas prévias disponibilizadas no SoundCloud de Rico Dalasam. Nelas, há uma mistura de graves, brasilidades, beats suaves e toques de R&B em arranjos que exploram bem as bases de piano.

Aliado a isso, o rapper traz rimas que nascem diretamente da espinha dorsal da comunidade gay, dispersada em uma visão global e ágil que consegue misturar “c’est la vie” e Woody Allen , UPPs e Afeganistão, perfumes 212 e batedores de carteira: tudo num mesmo balaio da diversidade hip hop.

Mesmo nadando contra a corrente, Rico Dalasam fala como quem quer alcançar o mainstream e não se importa em nunca ter pisado em uma grande gravadora. “Aparecer na TV, chegar a um Faustão da vida é consequência, mas tem que acabar essa história de acostumar a sociedade às coisas. O discurso gay no rap poderia ter acontecido há dez anos. Talvez demore muito mais, mas tô na batalha para que ser gay e ser rapper seja algo comum”, pontua.

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