Combate ao narcotráfico é mais eficiente sem os EUA, diz Morales

A cerimônia foi assistida pelos presidentes Dilma (Brasil), Nicolás Maduro (Venezuela), Rafael Correa (Equador), Horacio Cartes (Paraguai), vice argentino Amado Boudou e representações de outros países

iG Minas Gerais | Folhapress |

A supporter of Bolivia's President Evo Morales greets him with confetti Paracti, Bolivia, Saturday, Oct. 11, 2014. Morales seems certain to win an unprecedented third term in Sunday's presidential elections. (AP Photo/Juan Karita)
AP
A supporter of Bolivia's President Evo Morales greets him with confetti Paracti, Bolivia, Saturday, Oct. 11, 2014. Morales seems certain to win an unprecedented third term in Sunday's presidential elections. (AP Photo/Juan Karita)

O presidente boliviano, Evo Morales, assumiu nesta quinta-feira (22) seu terceiro mandato afirmando que nacionalizar o combate ao narcotráfico dá mais resultados do que com a ajuda dos EUA. Voltou, ainda, a reivindicar parte do território chileno por conta do acesso ao mar e justificou sua continuidade no poder, apesar de a atual Constituição boliviana só permitir uma reeleição.

A cerimônia, que ocorreu na Assembleia Legislativa, foi assistida pelos presidentes Dilma (Brasil), Nicolás Maduro (Venezuela), Rafael Correa (Equador) e Horacio Cartes (Paraguai), além do vice argentino Amado Boudou e representações de outros países.

DILMA

Dilma chegou a La Paz momentos antes de a cerimônia começar e saiu, sem dar declarações, logo após a foto oficial. Sorridente e vestida de casaco verde, a presidente vestiu o poncho cor-de-rosa oferecido no aeroporto e posou para fotos.

No ano passado, Morales havia reclamado que a presidente jamais visitara a Bolívia, ao contrário de seu antecessor, Lula. A relação entre os dois países havia ficado chamuscada após a fuga do senador oposicionista Roger Pinto promovida por funcionário do Itamaraty em La Paz. Até hoje, a embaixada brasileira na Bolívia encontra-se sem um titular.

EUA

"Quero pedir desculpas à comitiva norte-americana, mas sem vocês nós somos eficazes na luta contra o narcotráfico. Quando tínhamos a DEA (Drug Enforcement Administration) aqui, nos deixaram com 34 mil hectareas de plantação de coca, agora temos 22 mil e boa parte é dedicada à coca para consumo legal".

CHILE

Morales também afirmou que insistirá junto à Corte de Haia e a outros organismos internacionais pela reivindicação boliviana de saída ao mar, através do atual território chileno. O impasse, que desencadeou a Guerra do Pacífico em 1879 se estende diante da negativa do Chile em negociar.

Os chilenos pedem respeito a um acordo firmado entre os dois países em 1904, em que a Bolívia foi restituída financeiramente pelo território. Depois da notícias de que o papa Francisco interviria em favor dos bolivianos, a presidente Michele Bachelet decidiu não comparecer à posse. "Vamos voltar a ver o mar, é nossa vocação, o Império que aqui existia antigamente tinha litoral", afirmou Morales.

O boliviano começou seu discurso defendendo os avanços de sua gestão, que completou nove anos, na redução da pobreza (hoje em 11%) e no bom crescimento do país (5,5% no ano passado).

Vamos reduzir a um dígito o índice de pobreza, e melhoraremos a saúde para evitar que bolivianos tenham de se tratar no exterior", disse, mencionando o Brasil.

Morales concorreu ao terceiro mandato após a Corte Suprema avaliar que, devido à mudança da Constituição em 2009, o presidente estaria, tecnicamente, apenas no segundo mandato. "Nunca nenhum projeto político teve tanta popularidade na Bolívia. Vencemos três eleições com mais de 50%, 60% dos votos, e temos maioria no parlamento", concluiu.

INTERNACIONAL

Ao final, Morales saiu ao balcão do palácio de governo, na plaza Murillo, e cantou junto ao vice, Álvaro García Linera, Rafael Correa e Boudou a Internacional Socialista. O vice argentino parecia alheio à comoção nacional que a morte do promotor Alberto Nisman causou em seu país. Sorrindo o tempo todo e fazendo o sinal de paz e amor com os dedos, Boudou também não quis dar declarações sobre a crise envolvendo a gestão Cristina Kirchner.

MULHERES

"Se não fossem tão teimosas, as mulheres mandariam no país, porque são honestas e mais trabalhadoras. Só peço que parem de brigar entre si", disse Morales, ao final do discurso, ao elogiar o aumento da participação das mulheres no parlamento na última década.

Não é a primeira vez que Morales faz comentários considerados machistas pela oposição e por organizações feministas, pelos quais já pediu desculpas anteriormente.

Apesar de reforçar o fato de que 50% dos parlamentares da última gestão serem mulheres, líderes oposicionistas chamam a atenção para o fato de que a maioria é de origem indígena e camponesa, portanto não representando as mulheres das áreas urbanas.

"Morales elogia a participação da mulher, mas somente daquela que opta pela vida familiar, servil, e ocupando o papel de mãe, como na tradição indígena. As que vivem vidas mais independentes, nas grandes cidades, não têm espaço em seu partido e em seu governo", disse em entrevista María Galindo, da fundação Mujeres Creando.

Em seu gabinete ministerial, a porcentagem não se confirma, apenas 35% são mulheres. No começo da semana, todos os ministros se demitiram e Morales promete uma reforma na composição do gabinete, a ser anunciada na semana que vem.

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