Há males que vêm para bem?

iG Minas Gerais |

Sob o signo de uma boutade, o artigo de Merval Pereira – “Tempestade perfeita” – nos desperta nos lábios um sorriso matreiro. O mais interessante é a ambiguidade de que se valeu o autor, apimentando mais ainda a graça a que recorreu: “Do ponto de vista eleitoreiro e pessoal, o PSDB pode dizer que ter sido derrotado foi uma sorte, pois estaria sendo acusado pelo PT na oposição de tomar medidas impopulares que não seriam necessárias”. Feche-se a gozação, pois com o dito espirituoso está completo um círculo que se adapta como luva à fogosa e arrogante agremiação, mormente quando esta se expressa com a convicção de que a infalibilidade de que está investida é da mesma natureza da que cobre os pronunciamentos papais em questões teológicas. Daí deixar o cronista político a matéria de mérito mais pra frente. Fez bem, porque o assunto da discussão é da mais alta gravidade, ferindo profundamente valores nacionais que muito prezamos e se espalham por vários escaninhos da nação brasileira. Pelo começo. O lançamento da candidatura da dra. Dilma e o desenrolar da sucessão acabaram sendo, ao lado de outros lances, um conjunto de fraudes político-partidárias. Alçou, assim, o Nosso Guia a candidata “in pectore” sem qualquer preocupação com a verdade, ao transformar uma militante política paroquial, sem qualquer familiaridade com o voto popular, em extraordinária “gerentona”, que revolucionaria os métodos de governar o país, modificando-lhe estruturas esclerosadas e cumprindo seu mais profundo compromisso com um Brasil eficiente, honesto e honrado. Deu no que deu. O aparelhamento do Estado e da administração pública para a política despudorada e o proveito pessoal, avançando sobre todos os limites da moralidade pública, e o envolvimento sem fronteiras com escândalos e ataques a bens públicos, tudo isso quase se tornou uma espécie de prática do dia a dia da administração estatal. Somados os meus tempos de adolescência, idade adulta e velhice na observação do processo político do país, nunca acompanhei tempos de tanto despreparo para a vida pública e de perícia para a rapina. Não se conhece, de verdade, nenhum canto da administração que haja sido poupado. Se fosse possível proceder a uma auditoria geral na Federação e no conjunto dos poderes do Estado, não por meio dessa aleijada Controladoria Geral da República, seria simplesmente pífio o resultado dessas pescarias inúteis. Vendido à nação, por mais de uma década, com todas as distorções do marketing mentiroso por todo lado, foi exatamente o oposto. E o povo brasileiro, no curso de tantas experiências dolorosas, ressalvados apenas pequenos interregnos de trabalho e seriedade, pouco aprendeu, se tirou algum proveito, cívica e culturalmente. Acabou, porque não existiu, a Nova República. Formaremos a que Tancredo Neves tanto quis? É uma grave interrogação. Se o Brasil não fortalecer suas instituições, que ainda capengam, as esperanças continuarão vãs.

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