‘Nossa matéria é a percepção’

Adriana Banana remexe seus arquivos para criar a obra “Memória”, a partir de hoje, na galeria do Sesc Palladium

iG Minas Gerais | Luciana Romagnolli |

Multivetorial. Artista “desenquadra” o espaço, colocando o espectador no lugar de escolher o que ver e livre para entrar e sair
carol Silas/Divulgação
Multivetorial. Artista “desenquadra” o espaço, colocando o espectador no lugar de escolher o que ver e livre para entrar e sair

A memória não é uma estante de livros catalogados onde se possa localizar um exemplar. Nem um vídeo rebobinável. Na concepção adotada pela artista da dança Adriana Banana, memórias são fragmentos. Por isso, cada um lembra a seu modo. Caótico.

O assunto perpassa a nova criação de Banana com o Clube Ur-H0r para o 9º Verão Arte Contemporânea. “Não é um espetáculo”, esclarece a artista. A palavra “instalação” tampouco a deixa confortável. “Nomear é difícil. Tem coisas reconhecíveis como dança e outras não, mas isso não é o mais importante”, diz. Depende do olhar de cada um.

A partir de hoje até domingo, “Memória” será apresentada das 19h às 22h, na Galeria de Arte GTO, no Sesc Palladium. O público é livre para entrar e sair no horário desejado: um modo de esvaziar a relação de obrigatoriedade do espectador com o evento artístico. “Deixá-lo mais à vontade”, explica a criadora.

A concepção da obra foi determinada por suas condições práticas de produção. Com R$ 20 mil recebidos do Fundo Municipal de Cultura, “não dava para fazer um trabalho gigante”, diz Banana. A dançarina optou, então, por trabalhar com sua própria memória artística. “Quando você vai fazer um espetáculo, descarta muita coisa. Fui guardando o que não tive a oportunidade de mostrar desde 1988, quando comecei a dançar com o Marcelo Gabriel na Companhia de Dança Burra”, recorda.

Esses resquícios de passado – roupas do espetáculo “Magazin” e sapatos de “Desenquadrando Euclides”, entre outros tantos – estão dispostos em caixas numeradas e só serão trazidos à cena caso sorteados pela artista e seus convidados (Dorothé Depeauw, Thembi Rosa e Tuca Pinheiro) em um bingo. O aleatório determina o visível.

Partes da obra são realizadas ou expostas no chão, no rodapé e em outros pontos inesperados da galeria. “Trabalho o desenquadramento espacial e da percepção”, explica Banana. “A caixa preta (palco frontal, fechado nas laterais e no fundo) é feita de acordo com o pensamento renascentista até hoje na dança. Meu jeito de organizar o material em cena é para que as pessoas possam escolher o que ver e ver mais de uma coisa ao mesmo tempo”.

Indagada se o foco do trabalho seria justamente jogar com as formas de percepção do espectador, Banana contrapõe: “No fim das contas, esse é objeto do trabalho do artista. A nossa matéria é a percepção”. Como exemplo, cita o modo como a sapatilha de ponta nega a gravidade. “Na arte, a gente consegue fazer isso pelo corpo, esse meio de expressão. Aquela percepção de não-gravidade é muscular”, observa.

Experiência. A pesquisa sobre espaço e tempo, já desenvolvida pela artista ao longo da carreira, segue alguns princípios norteadores fixos: bifurcação, aleatoriedade, multivetorialidade, fractalidade e teoria darwinista (seleção, adaptação e mutação). “Eles sustentam meu corpo”, defende Banana.

Com a memória, os mesmos procedimentos se aplicam. “Não existem pedaços inteiros de memória. Talvez esteja no corpo, mas ninguém se lembra de tudo o que experenciou imageticamente, sonoramente. A gente tem uma memória do futuro”, comenta a artista. Com isso, ela sugere que o presente media a memória a partir de hipóteses do futuro: o que será ou não um risco. “É uma questão de estabilização, você faz correlações para sobreviver”, afirma.

A memória, então, cumpre a função de não deixar algo morrer. “Entra uma questão política. No Império Romano, o imperador tinha o poder de decidir se você vive ou morre. Hoje não mais, mas deixam morrer. As minorias, por exemplo. A dança, se não há política para ela, a deixam morrer”.

Agenda

O Quê. “Memória”

Quando. De hoje a domingo, às 19h

Onde. Galeria de Arte GTO – Sesc Palladium (av. Augusto de Lima, 420 - centro)

Quanto. Entrada franca  FID em SP

Adriana Banana planeja levar o FID – Fórum Internacional de Dança para São Paulo em 2016, com uma edição dupla e simultânea aqui e lá.

O impulso é financeiro: ampliar o orçamento-teto de R$ 100 mil oferecido pelas leis de incentivo mineiras.

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