Mostra homenageia as mil faces da atriz Dira Paes

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |



Com primeiro filme aos 15 anos, Dira celebra três décadas no cinema
Leo Lara
Com primeiro filme aos 15 anos, Dira celebra três décadas no cinema

Homenageada da Mostra de Tiradentes deste ano, a atriz Dira Paes tem uma relação especial com a sétima arte. “O cinema é meu berço. Foi ele que me ajudou a nascer”, confessa. Aos 15 anos, ela foi indicada por um professor de teatro do colégio, em Belém, para um teste e passou. O projeto era “A Floresta das Esmeraldas”, longa filmado pelo cineasta inglês John Boorman na Amazônia.

“Foi o começo cinderelesco. Vi o que era uma super-produção, desisti de fazer vestibular para engenharia e fui para o Rio atrás dessa porta que tinha se aberto para mim”, lembra. Com dois meses estudando artes cênicas na capital fluminense, Paes fez outro teste para o filme “O Boto”. E passou. O resto é história.

Com 45 anos, a atriz paraense vem fazendo cinema há 30. O segredo da longevidade é uma versatilidade incomum para atores com carreiras tão consagradas. Paes é daquelas atrizes que um diretor pode imaginar como a mãe ou como a prostituta, a mocinha romântica ou uma vilã da pá virada. “Isso não foi involuntário. Já pensava nisso antes porque o estímulo para mim é sempre estar fazendo uma coisa nova”, afirma.

Essas várias facetas fizeram Paes estourar há cerca de dez anos, quando a mãe do filme “2 Filhos de Francisco” e a empregada Solineuza do programa de TV “A Diarista” colocaram o rosto, até então coadjuvante, no centro da tela – e na boca do povo. “Quando a comédia entrou na minha vida, me deu novo fôlego e acho que o público conseguiu perceber isso. Que a Solineuza e a Helena, apesar da polaridade das personagens, eram a mesma atriz. E é isso que todo ator busca”, comemora.

Mas outro trunfo pouco comum que Paes conseguiu é que esse reconhecimento do público é acompanhado de uma aclamação crítica quase unânime. “A Dira é uma atriz inquieta, além de ter essa herança indígena misturada com europeu que pode ser uma gaúcha, uma sertaneja ou fazer um filme francês”, descreve o curador da Mostra de Tiradentes, Cléber Eduardo.

É esse equilíbrio entre trabalhos de grande apelo popular na TV, como a Norminha da novela “Caminho das Índias”, e parcerias ousadas como os filmes com o cineasta Cláudio Assis que mantêm a atriz no que ela define como “o fio da navalha”. Mesmo “Órfãos de Eldorado”, longa estrelado por Paes que abre Tiradentes amanhã, é uma aposta da atriz veterana no diretor Guilherme Coelho, que faz sua estreia em ficção.

Essa ousadia, segundo ela, vem de uma adoração pelo ofício, que faz com que ela nunca tenha se negado a fazer algo que um diretor lhe pediu. “Você dança conforme a música, respeita o jeito de cada um. E o set é o nosso templo, um lugar de profundo respeito e concentração, e eu nunca vi ninguém profaná-lo”, analisa.

Com três longas a caminho – a comédia “Saias”, de Gustavo Acioli, em que ela vive uma senadora corrupta; “Amazônia Caruana”, de Tizuka Yamazaki; e “O Redemoinho”, de José Luiz Villamarim – e atualmente estrelando a peça infantil “A Caligrafia de Dona Sofia” no Rio, a paraense ainda se permite sonhar. “Se eu gostaria de trabalhar com um Alejandro Iñárritu, um Ricardo Darín ou um Javier Bardem? Claro, adoro a latinidade deles”, ela brinca. Mas admite estar satisfeita com o conjunto da carreira que Tiradentes reconhece neste ano. “As pessoas fazem referência ao meu trabalho citando o nome das personagens: a Dadá, a Corina, a Norminha, a Solineuza. E isso me deixa muito feliz porque é assim que quero ser lembrada: pelo meu trabalho”, conclui.

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