"Esse Congresso não representa mais nada", diz Erundina

Reeleita, deputada federal desabafa sobre a classe da qual faz parte e não aposta mais nem em reforma política; veja outras notas

iG Minas Gerais | Ricardo Corrêa e Lucas Ragazzi |

TÉRCIO TEIXEIRA/AE - 15.6.2012
undefined
Luiza Erundina, eleita em outubro do ano passado para seu quinto mandato consecutivo de deputada federal, nem parece uma representante do Congresso que tomará posse. Suas palavras assemelham-se muito mais às que ouvimos por aí, nas rodas de conversa, nos protestos e entre aqueles que têm horror à política. Desanimada com os rumos de seu próprio partido e da classe da qual faz parte, ela resume de forma dura: “Nós do PSB não representamos mais nada. E esse próximo Congresso não representa mais nada. Que grau de legitimidade, de representatividade que tem, se nós já assumimos deixando uma dívida, mais uma, para a sociedade? Nossos honorários foram majorados de forma absurda. Um aumento sem nenhuma consideração ao momento que o país vive, de crise, de cortes, de contenção de gastos. E ainda aprovado no final da legislatura sem qualquer discussão”. Erundina, que participa das discussões para a criação do Avante!, novo partido que contaria com a presença de lideranças dissidentes da Rede, de Marina Silva, não aposta nem mais na reforma política. “Militei por mais de 15 anos pela reforma política. Mas agora eu vejo que tentar reformar, remendar esse tecido desgastado, poluído, só vai aumentar o problema. Nos temos é que reorientar o sistema político. Não é mudar a eleição, é algo que tem que começar de fora, da sociedade”. Para Erundina, a saída não está pronta, mas passa por estabelecer “uma relação horizontal, verdadeiramente democrática, diferente do que existe hoje nos partidos.  “É preciso refazer o conceito de poder que emana do povo. Esse poder não pode ser apropriado por qualquer um, ignorando a sociedade”, desabafa. Leia outros trechos da conversa: Relação com o PSB, seu partido "O desgaste não é de hoje. Já é desde o segundo turno das eleições. Eu era da Executiva Nacional do partido e me afastei quando houve o apoio ao Aécio (Neves). Por uma questão política, e não pessoal. Questão de projeto político. Primeiro com o Eduardo Campos e depois com a Marina (Silva) como candidatos, o discurso era de romper com a polarização entre PSDB e PT. O mais coerente então era liberar a militância para que os eleitores tomassem uma decisão e não tomar uma postura de apoio ao Aécio, de fazer campanha. Isso contradisse completamente o discurso. Deixamos de ser a terceira via e passamos a ser a segunda via. E, para mim, política é coerência". Situação atual "De lá para cá, as coisas têm caminhado de forma diferente do que era esperado. A formação daquele bloco mesmo com PSB, PPS, PV, PSB e Solidariedade, por exemplo, foi feita sem nenhuma discussão. Nem com a bancada propriamente dita. Já estão articulando candidatura à Prefeitura de São Paulo, sem debate. Então é uma situação muito complicada. Não é pessoal, nem de momento. Eu já venho reagindo, eu reajo a essas candidaturas, a essas alianças. Aí o Júlio Delgado (MG) assume a liderança do partido no lugar do Beto Albuquerque (RS) e vai ser candidato à Presidência da Câmara e nada disso foi discutido. . A discussão, se foi feita, foi com outros partidos. Essas práticas que terminam desmerecendo, descaracterizando um partido que era alternativa nesse quadro de pluripartidarismo. Era uma alternativa na relação com os outros partidos, no protagonismo, uma alternativa para a sociedade". Aumento de salários "Eu tenho um projeto de lei desde 2011 que exige que aumento de salários, de honorários dos parlamentares, tenha que passar por um referendo, mas pergunta se já saiu da gaveta. Não sai. Não querem mudar nada. É simples. E é por isso que a sociedade não dá mais credibilidade à classe política. Pena que eu não tenho espaço, pois não sou líder, não sou nada. A dinâmica de discussões tira esse espaço perante aqueles que comandam os partidos". A saída para o descrédito "Não é uma saída que está pronta. Estamos em uma cultura política, uma prática política cheia de hábitos, vícios, reproduzidos em escala de tempo que não dão condição de fazer mudanças. É preciso incentivar os movimentos de massa, como as manifestações de 2013. Não acabou. Simplesmente não houve um canal para que exprimisse suas ideias. Não havia um candidato, uma alternativa. Olhe o índice de abstenção, de votos nulos, brancos. Isso é um sinal. Assusta o desinteresse pelo debate político. Acho que chegamos ao fundo do poço. Sabe quando você chega em um ponto que não tem mais poço para descer? Quem sabe isso pode ser o momento de dar um passo na direção certa?". O novo partido "Há um início de articulação, sem presidente, sem preocupação com fundo partidário, com poder institucional. Apenas com uma crítica contundente ao sistema político. A questão é com o povo. Sem o povo não muda nada. Personalismo não ajuda. Tem que estabelecer uma relação horizontal, verdadeiramente democrática, diferente do que existe hoje nos partidos, que são fechados. Sem a disputa interna de poder. É preciso refazer o conceito de poder, que emana do povo e não pode ser apropriado por qualquer um, ignorando os anseios da sociedade. Hoje as alianças não respeitam a soberania popular. Com as coligações, o cidadão vota em um e elege o outro que não sabe quem é". Reforma política "Não acredito mais. Em 15 anos na Câmara eu militei, fui ativista da reforma política. Mas tentar reformar esse tecido desgastado, poluído, só vai aumentar o problema. Nos temos é que reorientar o sistema político. Não é mudar a eleição, é algo que tem que começar de fora, da sociedade. A mudança, a novidade, só virá de fora para dentro".   FOTO: Wilson Dias/Agência Brasil Sede do Incra é invadida Sede do Incra é invadida por integrantes da FNL, em Brasília Ato pela terra Em mais um protesto pedindo pela reforma agrária, integrantes da Frente Nacional de Luta – Campo e Cidade, invadiram ontem a sede do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), em Brasília. Recentemente O TEMPO demonstrou que as desapropriações e concessões de terra diminuíram no governo Dilma Rousseff, se comparadas aos antecessores Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Lula (PT). Conservadora Apresentadora de televisão e mulher do ex-deputado Hélio Gomes (PSD), a deputada federal eleita Brunny (PTC) já afirmou, em outras oportunidades, que irá adotar postura conservadora no Congresso. Assim como Eduardo Cunha, a futura parlamentar tem forte caráter religioso, sendo participante ativa da Igreja Batista do Calvário. “Não apoio o casamento gay, mas também não discrimino. Mas é aquele negócio, casamento é homem e mulher” diz, rindo. A nova representante de Minas na Câmara também diz ser contra o aborto. Perguntada sobre seus planos de atuação, ela não soube especificar qualquer projeto, mas afirmou colocar a “educação em primeiro lugar”. As posturas conservadoras destoam das roupas curtas e danças ousadas já flagradas em festas em sua cidade.   R$ 11,2 mil CUSTARÁ o telão de LED que será usado na posse dos deputados federais eleitos. O custo inclui a instalação e a manutenção do equipamento.   Bico calado No momento em que o governo novo começa a conhecer melhor a situação do Estado e passa a traçar metas mais consistentes, o cidadão terá um pouco de dificuldade para saber quais são esses planos. Há uma determinação do governador Fernando Pimentel proibindo os secretários de darem entrevistas para veículos de comunicação durante 90 dias. Só falam em coletivas, se for o caso. O secretário de Desenvolvimento do Norte e Nordeste de Minas, Paulo Guedes, foi cobrado por marcar várias entrevistas após a ordem. Sua assessoria foi obrigada a ligar desmarcando.   Mudanças no DER As mudanças implementadas pelo governador eleito Fernando Pimentel (PT) atingiram o Departamento de Estradas de Rodagem (DER-MG). Ontem, foram publicadas as exonerações de Nelson de Andrade Reis, que era vice-diretor-geral do órgão, e de Carlaile Antonio Silva Pedrosa, que era ouvidor do DER. Ele é filho do prefeito de Betim, o tucano Carlaile Pedrosa. Nos dois casos, o diretor-geral do DER, Célio Dantas de Brito, está respondendo interinamente. Também deixou o órgão Evandro Dias Moreira, coordenador regional em Juiz de Fora. Ele solicitou aposentadoria no fim de 2014.

Mutirão da Rede O chamado “mutirão de verão” do partido de Marina, que terá uma nova edição no fim de semana, prevê obter 100 mil assinaturas até o fim do mês. Mas os mineiros não poderão ajudar no domingo, ja que não há postos de coleta em nenhuma cidade do Estado, segundo divulgou a Rede Sustentabilidade.

Leia tudo sobre: luiza erundinaerundinaPSBcongressopolíticacríticaentrevistaaparte