O belo espetáculo do banho de piscina dos bem-te-vis

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DUKE
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O jardim e o quintal de minha casa são frequentados por um sem-número de pássaros, embora o comedouro deles fique no quintal – são tantos que devoram quase dois quilos de “comidinha de passarim” por mês. O dia todo há beija-flor zanzando pelo jardim entre as flores e os três bebedouros. Os bem-te-vis tomam conta do jardim quando o calor aumenta, lá pelo fim da manhã, porque adoram tomar banho na piscina. Só uma vez os vi “piscinando” à tarde. Ser espectadora de banho de passarinhos é um fascínio! A gente perde a noção do tempo. É doce e divertido apreciar a pândega que fazem em fila indiana. Jamais dois ao mesmo tempo! A gente procura a fila e não vê, só avista um voo rasante de peito, um a um. E a fila? Não sei, mas que ela existe, existe! São uns danadinhos de organizados. A primeira vez em que os vi estripuliando na piscina eu estava na pia da cozinha lavando louça quando ouvi um barulho de asas na água... Olhei pela janela: um bem-te-vi em voo rasante atravessou a piscina batendo o peito na água e, do outro lado, sacudiu as penas e voou até um fio, onde já estavam outros três secando-se ao sol. De repente outro, depois outro, mais outro e só então, retardatária, entendi que estavam tomando banho! Gargalhei na maior felicidade do mundo. Comecei a estudar os bem-te-vis piscineiros. Já sei o horário da “piscinação”, então fico lendo deitada numa rede num lado da varanda em que eles não me percebem. É aguardar o barulho de asas na água. É um espetáculo de rara beleza. Descobri que os banhos só acontecem quando a piscina está muito cheia. Com a água em torno de um palmo e meio das bordas, eles não se arriscam. Já coloquei um banhadouro (a banheira do meu neto Inácio) perto, mas nunca os vi usando! Em menos de um mês, já tive de me jogar na piscina de roupa e tudo duas vezes para salvar bem-te-vis se afogando, literalmente, porque perderam o impulso de molhar o peito na água e atravessar a piscina. Pense numa aflição! Da primeira vez não contei pra ninguém, pois não queria ouvir sermão do tipo: “Tá vendo, não pode morar sozinha que fica fazendo arte, correndo feito uma louca e se jogando na piscina de roupa e tudo para salvar passarinho!” No dia do segundo afogamento, resolvi contar pra Clarinha porque somos companheiras de passarinhadas desde ela pequenininha, como descrevi em “A magia de ‘passarinhar’ com Clarinha na Cidade Jardim” (O TEMPO, 27.9.2011), e ela chamava “passarim” de “peu-peus” (“Cuidando dos encantadores ‘peu-peus’ da Clarinha”, O TEMPO, 6.3.2012). Ela, ao telefone: “Sério, vó? Ai, coitadinhos! Mas eles não morreram, né? Mamããããe, vovó correu e se jogou de roupa na piscina e salvou dois bem-te-vis nossos que estavam se afogando! E se não tivesse ninguém em casa, vó? Agora, vó, tu não podes mais sair de casa... Ou então, leva todos no Mini Cooper, né? Será que cabe, vovó?” Enfim, Clarinha tem uma capacidade extraordinária de detectar com precisão os problemas e apresentar soluções como nunca vi igual! E já, é minha neta! Rindo, disse-lhe: “Vamos ter de comprar uma capa para a piscina porque não vou ficar aqui presa para salvar bem-te-vis!” Ela: “Ah, mas tu não gostas mesmo quase de nada, vó! Não gosta de supermercado, não gosta de shopping... Só de praia e de ir pra Ribamar”. Ainda não apareceram o bem-te-vi gago: “Bem-bem-bem... te-te-te... vi-vi-vi?” (“Histórias de Bem-Te-Vi”) e nem os desobedientes da “Escola de bem-te-vis” (“Te-vi! Te-vi! Te-vi!”), da Cecília Meireles, mas, um dia, quem sabe, não é?

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