A brasilidade nos corpos

“Madame Satã” trabalha com corporeidade de tradições negras como a capoeira, a dança dos orixás e a umbanda

iG Minas Gerais | Luciana Romagnolli |

Diferença. 
Arranjos menos grandiloquentes e técnica vocal mais próxima dos costumes do samba do que nos musicais em voga
Guto Muniz
Diferença. Arranjos menos grandiloquentes e técnica vocal mais próxima dos costumes do samba do que nos musicais em voga

O 17º Oficinão do Galpão Cine Horto traz mudanças em relação a edições passadas, que resultam – ao menos pelo que se pôde antever no ensaio – em um dos espetáculos mais interessantes do núcleo nos últimos anos.  

No novo formato, coletivos teatrais já existentes puderam inscrever projetos de montagem – e somente uma parte dos atores foi escolhida por meio de seletivas, cumprindo a função de fortalecer a formação de artistas mineiros a que o Oficinão se propõe. Venceu o projeto do Grupo dos Dez com João das Neves para a montagem de “Madame Satã”.

Mais familiarizado com a música do que com o teatro propriamente, o grupo nasceu a partir de uma oficina de teatro ministrada por João das Neves na Lagoa do Nado, em Belo Horizonte, em 2005. Depois, montaram juntos “Sagas no País das Gerais”, com direção musical da Titane. Além disso, em paralelo, alguns dos integrantes participaram dos musicais “Galanga Chico Reis” e “Zumbi”. Não é de se estranhar, portanto, a marca da estética do encenador no musical que agora estreia, mesmo que Rodrigo Jerônimo tenha sido mais presente no processo criativo.

“Esse pessoal trabalha há quanto tempo comigo?”, pergunta, retoricamente, João das Neves. “A influência é muito grande do nosso trabalho e da nossa assinatura”, diz.

Corpos. Ao mesmo tempo, o Grupo dos Dez aprofunda sua pesquisa no teatro musical brasileiro investindo em uma corporeidade negra. A preparação corporal de “Madame Satã”, feita por Benjamin Abras, trabalhou com a capoeira, a dança dos orixás e as giras da umbanda, entre outras tradições. Essa base fica visível nos movimentos de atores e atrizes.

O grupo também foi a fundo na investigação sobre a relação entre teatro e música. Usou como fonte uma pesquisa da professora da UFMG Jussara Fernandino sobre como a música entrava no teatro de grandes encenadores, de Brecht e Stanislavsky a Bob Wilson. As cenas, então, foram gestadas a partir de improvisações musicais inspiradas por cada um desses encenadores.

“A gente cria uma brasilidade nos corpos”, diz o codiretor Rodrigo Jerônimo, identificando esta como uma diferença crucial em relação aos musicais brasileiros em voga. Outra são os arranjos, conforme observa Bia Nogueira. “A gente não se reconhece nos corpos, na técnica vocal, nas harmonias grandiloquentes”, compara.

O trabalho musical é pontuado por delicadezas, como o som dos leques abertos abruptamente, ritmados. Em alguns momentos, é como se fosse possível ver a música nascer do cotidiano, num movimento repetitivo de vassoura, por exemplo. “O próximo passo é fazer o silêncio ser musical”, diz Bia. “É um desafio, ainda mais com um elenco tão grande. Demos a sorte de conseguir um elenco muito musical As músicas nasceram no processo; tem composição de todo mundo”, conta.

Relembre a trajetória do Oficinão do Cine Horto

2001. “Cães de Palha”, direção de Júlio Maciel

2002. ”O Homem que Não Dava Seta”, direção de Chico Pelúcio

2003. “A Vida É Sonho”, direção de Júlio Maciel

2004. “In Memorian”, direção de Chico Pelúcio, Júlio Maciel e Lydia Del Picchia

2005. “Estado de Sítio”, direção de Marcelo Bones e Joaquim Elias

2006. “Quando o Peixe Salta”, direção de Rodrigo Campos e Fernando Mencarelli

2007. “Lúdico Circo da Memória”, direção de Francisco Medeiros e Tiche Viana

2008. “Arriscamundo”, direção de Kenia Dias

2009. “Prato do Dia”, direção de Lenine Martins

2010. “Pop Love”, direção de Diego Bagagal

2011. “Zucco? Documenta: Rastros do Sujeito em Condições de Objeto”, direção de Amaury Borges

2012. “Delírio & Vertigem”, direção de Rita Clemente

2013.“Ensaio de Mentira ou o Último Ensaio para Dizer a Verdade”, direção de Chico Pelúcio

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