À margem, como ainda hoje

“Madame Satã”, montagem do 17º Oficinão codirigida por João das Neves, estreia quinta no Galpão Cine Horto

iG Minas Gerais | Luciana Romagnolli |

Trajetória. Espetáculo mostra momentos importantes da vida de Madame Satã, da infância pobre aos shows na Lapa carioca e à prisão.
Guto Muniz
Trajetória. Espetáculo mostra momentos importantes da vida de Madame Satã, da infância pobre aos shows na Lapa carioca e à prisão.

“Satã representa a verdadeira contracultura brasileira”, escreveu Paulo Francis no início de uma entrevista com Madame Satã, publicada no jornal “O Pasquim”, em 1971. “É um tipo completamente fora do nosso âmbito de experiência”, dizia o polemista, impressionado com a figura-mito da Lapa carioca, que “não esconde o jogo” e “se aceita como é”. “Há coisa mais difícil?”.

A trajetória de João Francisco dos Santos, vulgo Satã, foi retratada no filme de Karim Aïnouz, em 2002, com Lázaro Ramos como protagonista. Agora, é contada na forma de teatro musical, entre sambas originais compostos pelo elenco, na montagem feita para o 17º Oficinão. A estreia será nesta quinta, às 21h, no Galpão Cine Horto, pela programação do 9º Verão Arte Contemporânea. João das Neves, o veterano fundador do grupo Opinião nos anos 60 e diretor de espetáculos referenciais como “Besouro, Cordão de Ouro”, compartilha a direção com o mineiro Rodrigo Jerônimo, do Grupo dos Dez. Bia Nogueira completa a tríade criativa, na função de diretora musical – um dos pontos fortes do trabalho, pelo que se viu no ensaio acompanhado pelo Magazine quase uma semana antes da estreia, ao lado de Maurício Tizumba, também presente para trocar ideias com o grupo. “Madame Satã” conjuga elementos que o tornam especialmente relevante para o momento atual do país – e do mundo. É teatro musical brasileiro de raiz, com maioria de atores negros a resgatar uma biografia marcada pela sexualidade fora do padrão e pela violência, num contexto de fortíssima opressão social. O espetáculo começa informal, na parte externa do Cine Horto, e segue para o interior do teatro como um convite ao espectador para o ambiente das casas noturnas onde, ao lado de prostitutas da Lapa, Madame Satã costumava fazer seus shows. A sedução exacerbada nos corpos contrapõe-se a um discurso crítico sobre a sujeição das mulheres e a invisibilidade das travestis. Pela palavra e pela música, a montagem empodera grupos tradicionalmente relegados à marginalidade. “A gente conseguiu fazer a denúncia de uma forma poética”, comenta Bia. Todo o espetáculo equilibra-se entre essas duas forças: a poesia rítmica e a contundência discursiva, capaz de incorporar falas reacionárias que circulavam pela grande imprensa e pelas mídias sociais há menos de um ano. Foi uma opção por ligar a história de Satã à realidade recente do país. “Fiquei muito chocada (em 2014)”, comenta Bia. “A internet traz informações sem mediadores, mas desmascara os reacionários e os fascistas”, opina. Determinismo. Entre as ideias centrais da dramaturgia – concebida por Marcos Fábio de Faria e Rodrigo Jerônimo, sob orientação de João das Neves – está certo determinismo imposto por questões socioeconômicas. Exemplo é a baixíssima expectativa de vida das travestis ainda hoje – semelhante à expectativa geral da população brasileira no século XIX. “Para se libertar dessas condições sociais, tem que ser muito bom e tem que aparecer uma oportunidade”, observa João das Neves, prestes a completar 80 anos. Ele recorda outro caso emblemático, o triste fim de Fernando Ramos da Silva, ator que protagonizou “Pixote – A Lei do Mais Fraco”, filme de Hector Babenco. “Satã é uma figura lendária da época na Lapa e muito folclorizada no bom e no mau sentido. Não conhecemos a história dele. Pouca gente sabe que a família era do Nordeste, que ele foi vendido em troca de uma égua e obrigado a reagir com as armas que tinha: o corpo e a violência. É um trabalhador empurrado toda hora para virar um marginal. Uma história que se repete e se repete”, diz o diretor carioca. Tradição. No palco, 14 atores cantam, tocam percussão e instrumentos de cordas, como violão, cavaquinho e até um violino. Oito deles passaram por seleção e seis já integravam o Grupo dos Dez. Para dar conta das diferentes idades e imagens de Madame Satã, Rodrigo Ferrari, Denilson Tourinho e Evandro Nunes revezam-se no papel central.

Memória Em 1971, Madame Satã concedeu uma entrevista histórica a Paulo Francis, Millôr Fernandes, Jaguar e outros para “O Pasquim”. Pode ser lida em: http://www.tirodeletra.com.br/entrevistas/MadameSata.htm Agenda O quê. “Madame Satã” – 17º Oficinão Galpão Cine Horto Quando. De quinta a sábado, às 21h, e domingo, às 19h. Até 8 de fevereiro. Onde. Galpão Cine Horto (rua Pitangui, 3.613, Horto, 3481-5580) Quanto. R$ 16 e R$ 8 (meia)

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