A obra de arte tem de ser imperfeita

iG Minas Gerais |

Hélvio
undefined

Outro dia, o Nelson Rodrigues baixou em mim. De vez em quando, eu o psicografo. É impressionante como escrevo rápido quando o espírito de Nelson me toma. Escrevo com a liberdade de não ser “eu”. Talvez seja por isso que Fernando Pessoa inventou heterônimos – para se sentir livre da cangalha do “eu”. Muitos jovens me perguntam: “Afinal, quem foi o Nelson?”. Não sabem direito. Ficou apenas a vaga lenda de “pornográfico” ou até de “fascista” por ter puxado o saco do ditador Médici (lembram?) para tirar seu filho da prisão. Não conseguiu, mas ganhou a pecha “de direita” por ter criticado futuros mensaleiros e pelegos, os “marxistas de galinheiro”, como ele os chamava, pois intuiu claramente, na época, que a ideologia que “absolve e justifica os canalhas” era apenas o ópio dos intelectuais. Eu mesmo sofri por causa dele. Em 1973, ousei filmar “Toda Nudez Será Castigada” e dei uma entrevista na “Veja” em que dizia que “fascismo é amplo: existe fascista de direita e de esquerda também”. Pra quê? Os patrulheiros ideológicos mandaram um manifesto ao “Jornal do Brasil” no qual me esculhambavam indiretamente, dizendo que o sucesso imenso que o filme fazia “não era a missão política do Cinema Novo”. Foi das grandes dores que senti, pois até amigos assinaram o maldito texto, que só não foi publicado porque, um dia antes, os generais tiraram o filme de cartaz, com soldados de metralhadora levando as cópias dos cinemas porque, dizia o chefe da censura, “ele faz apologia ao homossexualismo...” Aí, meus “amigos” comunas desistiram do texto “para não dar razão ao inimigo principal”, que era a ditadura. Eu e Nelson éramos “inimigos secundários”, para usar a língua de Mao Tse-Tung. Isso é verdade e nunca contei aqui. Doeu, mas já passou. Aí, o filme voltou a cartaz porque ganhou o Urso de Prata no Festival de Berlim. Os generais ficaram com medo da repercussão internacional (imensa) e liberaram meu filme, baseado numa peça do “fascista pornô”. Mas a importância de Nelson continua subestimada. Hoje, a “pornopolítica” tomou conta de tudo e Nelson é que tem fama de “pornográfico” – logo quem: um moralista que corava diante de um palavrão. Nelson é muito mais. Filho do jornalismo policial, formado nas delegacias sórdidas, vendo cadáveres de negros plásticos, metido no cotidiano “marrom” do jornal do pai, Nelson flagrou verdades imortais que estavam ali, no meio da rua, na nossa cara, e que ninguém via. Consideram-no o maior dramaturgo do país, sem dúvida, mas não o colocam no pódio da literatura culta, ao lado de gente como Guimarães Rosa, por exemplo, o que o irritava muito: “Jabor, diga-me, pelo amor de Deus, qual a profundidade da frase ‘Viver é muito perigoso’ ou ‘a gente morre para provar que viveu?’”. Nelson implicava com a pose do Rosa. Uma vez, ele me disse ao telefone que o “problema da literatura nacional é que nenhum escritor sabe bater um escanteio”. É luminoso. Outra vez, ele falou: “Se Deus me perguntar se eu fiz alguma coisa que preste na vida, eu responderei a Deus: ‘Sim, Senhor, eu inventei o óbvio!’”. Sua literatura nos ensina o óbvio e isso é muito profundo numa literatura eivada de engajamentos “corretos” ou de intenções formais rocambolescas. Gilberto Freyre sacou sua “superficialidade profunda”, assim como André Maurois entendeu que a genialidade de Proust era justamente “a épica das irrelevâncias...”. E isso é muito saudável num país onde ninguém escreve um bilhete sem buscar a eternidade. Nelson é um escritor contemporâneo. Até hoje, muita gente não entendeu que sua grandeza está justamente na sincronia com os detritos do cotidiano. A faxina que Nelson fez na prosa é semelhante a que João Cabral fez na poesia. Nelson baniu as metáforas a pontapés, “como ratazanas grávidas”, e criou o que podemos chamar de antimetáforas feitas de banalidades condensadas. Suas comparações sempre nos remetem a um “mais concreto”. Shakespeare tinha isso, Cervantes também. E algumas crônicas de Nelson são superiores a muitas peças. Suas frases famosas jamais aspiravam ao “sublime”: “o torcedor rubro-negro sangra como um César apunhalado”, “a mulher dava gargalhadas de bruxa de disco infantil”, “em seu ódio, ele dava arrancos de cachorro atropelado”, “seu peito se encheu de heroísmo como anúncio de fortificante”, “a bola seguia Didi com a fidelidade de uma cadelinha ao seu dono”, “a virtude é bonita, mas exala um tédio homicida”; “não acredito em honestidade sem acidez, sem dieta e sem úlcera”, “o sujeito vive roendo a própria solidão como uma rapadura”, “somos uns narcisos às avessas que cuspimos na própria imagem”. Ele me dava lições de arte e literatura: “Enquanto o Fluminense foi perfeito, não fez gol nenhum. A partir do momento em que o Fluminense deixou de ser tão elitista, tão Flaubert, os gols começaram a jorrar aos borbotões. E aí vem a grande verdade: a obra prima no futebol e na arte tem de ser imperfeita”. Isso. Contemporâneo e minimalista, via, como Oswald, que a poesia está nos fatos, no vatapá, no outro e na dança: “O que estraga a obra de arte é a unidade”. A lição política de Nelson é: o Brasil não se salvará com planos messiânicos ou ideias gerais de “epopeias de Cecil B. de Mille”, sejam elas epopeias operárias ou epopeias neoliberais. Nelson, sem cultura política alguma, profetizou que os atos “indutivos”, as providências parciais eram muito mais importantes que generalidades utópicas e “dedutivas”. O “óbvio ululante” é limpar a casa e cuidar do detalhe, do enxugamento do Estado, “chupando a carótida dos chefes das estatais como tangerinas” quando se mostrarem ladrões ou favorecendo correligionários, como vemos todo dia. Nossa opinião pública está muito mais informada hoje, mas ainda é precária e desinformada. Como ele dizia: “Consciência social de brasileiro é medo da polícia”. Até hoje. Texto originalmente publicado em 7/6/2011. O colunista está de férias;

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave