Ignorância gera intolerância

Para professor de cultura religiosa, falta de conhecimento sobre a religião cria preconceito contra o muçulmano

iG Minas Gerais | Luiza Muzzi |

Vivência em BH. Empresário muçulmano (esq.) Luís Carvalho e o sheik marroquino Mokthar El Khal
LEO FONTES / O TEMPO
Vivência em BH. Empresário muçulmano (esq.) Luís Carvalho e o sheik marroquino Mokthar El Khal

Os reflexos que os recentes atentados de Paris terão a médio e longo prazos diante da comunidade islâmica têm dividido opiniões. Enquanto para alguns, os acontecimentos desencadearão um efeito cascata de ódio e preconceito contra os seguidores do islamismo, para outros a repercussão tende a gerar maior curiosidade e busca de conhecimentos sobre quais são, de fato, os princípios e os ensinamentos da religião.

Uma pesquisa divulgada pela plataforma PiniOn na última semana apontou que 82% dos 1.829 brasileiros entrevistados acreditam que o atentado à revista “Charlie Hebdo” pode estimular o preconceito contra algumas comunidades religiosas. Carlos Frederico Barboza de Souza, professor de cultura religiosa na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (Puc Minas), explica que, no caso do islã, a falta de conhecimento é um dos fatores que favorecem a discriminação. “O que se sabe sobre o Islã é muito pouco, e o pouco que se sabe é sobre terrorismo, até mesmo em função das reportagens sempre focadas em atos extremistas”, afirma. “As pessoas desconhecem a história ampla e a diversidade interna de posturas dentro do Islã, e esse desconhecimento só gera mais intolerância e mais preconceito”. Morando há quase 22 anos em Belo Horizonte, o sheik marroquino Mokthar El Khal acredita, por outro lado, que os atos terroristas podem trazer um retorno positivo. “(O atentado) foi feito por dois malucos, mas usado para outra finalidade, a de parar o crescimento do islamismo na Europa. Mas tudo isso vai deixar muito mais gente conhecer e abraçar o Islã”, sugere. Já o empresário muçulmano Luís Eduardo Chaves de Carvalho, 40, afirma que, no pós-atentado, o mundo pode se dividir meio a meio. “Existem interesses óbvios de algumas classes em não fazer os valores do Islã prevalecerem. Com os atentados, a lógica da perseguição aumenta, mas cresce também o lado da curiosidade das pessoas”. Experiência. Carvalho, que frequentemente escuta comentários em relação à barba que aderiu após abraçar o Islã, acredita que existe no Brasil “a cultura da discriminação velada” contra os muçulmanos. Em sua visão, embora o preconceito não seja declarado, ele existe e é grande nas atitudes das pessoas. “Já fui chamado de Osama Bin Laden e outros nomes. Mas quem mais leva paulada de discriminação é a mulher. Minha esposa mesmo, brasileira, já ouviu na rua: ‘volta para teu país’. As pessoas criam um estereótipo”.

MG tem 108 refugiados, segundo PF Cento e oito refugiados vivem hoje em Minas, sendo 60 deles na capital, de acordo com a Polícia Federal. Entre as nacionalidades mais comuns estão a haitiana, a síria e a guineense. Os números correspondem aos pedidos de refúgio concedidos entre 2010 e 2014, mas podem aumentar, já que algumas das solicitações estão em análise. No ano passado, o Brasil atingiu o recorde na concessão de refúgio a estrangeiros. Segundo dados divulgados pelo Ministério da Justiça, foram 2.320 refúgios em 2014, mais que o triplo de 2013 (651).

Outras regras e curiosidades sobre o Islã Alcorão. O livro sagrado é o Qur'an (Alcorão), que é a revelação literal de Deus, ditada para o profeta Muhammad por meio do anjo Gabriel. O Islã considera a recitação, a memorização e o ensinamento do Qur'an atos de adoração. Líder. Não existe autoridade espiritual autônoma no Islã. Os sermões normalmente são conduzidos por quem tem mais conhecimento. Adesão.As pessoas devem aderir à religião apenas se estiverem convencidas dos mandamentos de Allah. Paz. O islamismo proíbe o fanatismo e o extremismo em assuntos religiosos, e também proíbe o muçulmano de insultar crenças e religiões dos outros. Ele prega a paz e ordena moderação nos assuntos mundanos. Entendimento. O Islã é universal e considera outros livros, como a Bíblia, fundamentos direcionados a povos específicos. Para os muçulmanos, Jesus foi mais um entre os vários mensageiros anteriores a Muhammad. Regras. Existem leis e regulamentos para todos os aspectos da vida, incluindo ensinamentos de como se portar no casamento, nas relações sexuais e em necessidades fisiológicas. Fora de casa, as mulheres devem usar vestimentas e véus que cubram todo o corpo, deixando apenas os rostos e mãos de fora. Os muçulmanos têm proibições em relação a comidas (carne de porco, por exemplo) e bebidas (alcoólicas).

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