Atitude, vocais altos e guitarras feministas

Trio americano lança “No Cities To Loves” em homenagem aos 20 anos da banda

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Volta. Em outubro, o trio havia divulgado o clipe do single “Bury Our Friends” como aperitivo do disco
sub pop/divulgação
Volta. Em outubro, o trio havia divulgado o clipe do single “Bury Our Friends” como aperitivo do disco

Elas estavam sumidas do mercado fonográfico há quase dez anos, mas reapareceram agora como uma das melhores surpresas de lançamentos internacionais neste inicio de ano. “No Cities To Love” (Sub Pop), mais recente álbum das garotas do Sleater-Kinney, poderia soar como uma estreia promissora pelo som bem acabado e o título instigante (em tradução livre, “Nenhuma Cidade Para Amar”). Isso se esse não fosse o oitavo álbum de estúdio da banda, que comemora 20 anos em 2015, e é candidata forte a voltar ao topo das paradas norte-americanas.

Previsto para chegar às lojas dos EUA hoje, o álbum foi divulgado na íntegra pela rádio norte-americana NPR Music, na semana passada, e pode ser ouvido por streaming no site www.npr.org.

Mesmo sendo mais pop do que punk, o disco prova que as parceiras Corin Tucker, Carrie Brownstein e Janet Weiss podem até não ser mais as garotinhas rebeldes de Washington em 1994, mas esbanjam o flow de mulheres que perpetuam o feminismo maduro dentro do rock n’ roll e do mundo pop, mas sem ingenuidade e discursos baseados apenas em gritos.

Integrantes do movimento “Riot Girl”, que, inspirado em Patti Smith e Deborah Harry, convergiu diversos artistas para a divulgação e luta pelos direitos das mulheres, a Sleater-Kinney não lançava um álbum desde do aplaudido “The Woods” (Sub Pop, 2005). Ali, o público ainda assimilava uma banda atrelada ao classic punk rock, com um som cru de guitarras sujas, distorções, gritos arrebatadores e arranjos sombrios sobrepostos em letras fortes e afirmativas.

As dez faixas inéditas, porém, são mais polidas do que qualquer outro trabalho da banda, certamente pela volta da influência direta do produtor John Goodmanson, que trabalhou o som de Pavement, Blondie, Bikini Kill e havia produzido a Sleater-Kinney em outros três discos de estúdio – “Dig Me Out” (1997), “All Hands on the Bad One” (2000) e “One Beat” (2002).

Fica claro que a realidade de “No Cities To Love” diverge um pouco da agressividade sonora que marcou a Sleater-Kinney desde os meados da década de 1990. Mesmo assim, a força do conjunto calcado até hoje em bateria e guitarras, sem precisar da marcação de um baixo, mantém um barulho viçoso e bem talhado do trio.

A voz de Corin Tucker soa forte e muito precisa, principalmente nos agudos, desde a primeira faixa, “Prince Tag” – a que chega mais perto do rótulo punk das garotas. Ela só abaixa o tom e dá um tempo nos gritos para ensaiar um sussurro depois da metade do álbum, na sexta faixa, “No Anthems”, que apresenta solos cristalinos e melódicos da poderosa guitarra Gibson de Carrie Brownstein. A guitarrista, inclusive, se mantém no hall das melhores do mundo, mesmo ao deixar o punk de lado para beber com mais intensidade nas influências do breezier pop e do indie rock, investindo em solos envolventes, como os da quase-balada “Hey Darling”.

A força do punk é mantida na qualidade técnica da bateria de Janet Weiss, que esbanja improvisos e soa como o tronco referencial para um som mais moderno da Sleater-Kinney, conservando uma velha atitude.

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