As mulheres de Mazzilli

Fotoperformance disseca o século XX através de 25 personalidades femininas retratadas por um artista homem

iG Minas Gerais | Deborah Couto |

Fotoperformance. Artista Domingos Mazzilli como Loulou, uma das 25 musas em que se transformou
felipe ferreira/divulgação
Fotoperformance. Artista Domingos Mazzilli como Loulou, uma das 25 musas em que se transformou

Na pele de 25 mulheres, o artista visual Domingos Mazzilli exibe sua figura, registrada analogicamente pelo fotógrafo Felipe Ferreira, na exposição “Eu É Outr@(S)”, que começa nesta quarta-feira (21), na Casa dos Contos de Ouro Preto.

Com caracterização do maquiador espanhol Raul Cabanell, Mazzilli se realizou através de perucas, unhas postiças e vestidos, às vezes em mulheres imaginadas por outros, como a drag queen Divine, dos filmes de John Waters, e Lili Marleen, personagem de Marlene Dietrich no longa homônimo do alemão Rainer Werner Fassbinder; famosas como Frida Kahlo e Tarsila do Amaral; mas também em musas criadas por eles.

“São, todas elas, mulheres fortes e bastante excessivas no que diz respeito à feminilidade”, diz Mazzili, que, juntamente com o maquiador, passou até oito horas em processo de caracterização e fotografia para executar cada uma das obras. “Nos divertimos muito na construção dessas imagens, foi um trabalho em equipe. Mas também cansativo pelo profissionalismo com que foram feitas. Tudo foi muito pensado e articulado, milimetricamente programado”, conta o artista, que se assemelha a uma espécie de Cindy Sherman transgênero.

As 25 mulheres, segundo Mazzilli, cobrem todas as décadas do século XX. Os figurinos foram desenvolvidos pelo próprio artista, que comprou as peças ou buscou em seu acervo. “Fui, em poucos meses, todas as mulheres que quis. Tive todas as cores, tamanhos e texturas de cabelo, todas as cores de unhas e de olhos, todos os tipos de roupas, todas as caras e bocas”, afirma.

Essa realização sob a forma de outras pessoas, uma espécie de catarse, na vida de Mazzilli não se dá por acaso. Antes de ser artista, ele foi psiquiatra. Em 2007, quando tinha 43 anos, “insatisfeito e querendo voltar a ter contato com a academia e pessoas mais jovens”, voltou à faculdade para cursar artes plásticas. Logo aos dois meses de curso, na Guignard (UEMG) e na UFMG, montou sua primeira exposição. A partir daí a arte tomou lugar central em sua vida, decisão com a qual se diz muito feliz.De médico a artista.

“Como a psiquiatria e a psicanálise, a arte também lida com o vazio. A medicina, no entanto, tem a obrigação da cura. A arte é uma busca dela. Além disso, as demandas femininas no meu consultório sempre me foram muito marcantes. Me foi necessário externalizar isso”.

O feminino na arte de Mazzili é, de fato, um fio condutor. Em suas obras anteriores, ele trata o tema com densidade maior. Usa carne e vísceras como matérias-primas, trata a dor através de objetos de cozinha, borda sentimentos na lingerie. “Dessa vez, lido com a mulher de maneira mais leve, com humor”, diz. “Fui criado em uma família de cinco irmãs, sempre lidei com assuntos de roupa, enxoval. Falo da mulher de maneira psicanalítica. Não de forma idealizada, como um heterossexual faria, a trataria como princesa. Mas também dou conta de questões que elas próprias talvez não conseguiriam abordar, como a menstruação, por exemplo”, afirma.

Em cartaz até 28 de fevereiro, “Eu É Outr@(S)” foi assim intitulada com base em uma frase de Rimbaud: “Eu é um outro”.

O artista

Domingos Mazzilli trabalha com objetos, assemblages, bordados em lingeries, vídeos, instalações e fotoperformances

Agenda

O que. Exposição “Eu É Outr@(S)”, de Domingos Mazzilli

Onde. Casa dos Contos (rua São José, 12, centro, Ouro Preto)

Quando. De 21/1 a 28/2, segunda-feira, das 14h às 18h, terça a domingo, das 10h às 18h (fecha no Carnaval)

Quanto. Entrada franca

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