Pesquisa que se engaja na realidade

Plataforma virtual integra conjunto de ações que buscam refletir e atuar sobre a produção do espaço urbano

iG Minas Gerais | daniel toledo |

Resistência. Movimento Fica Ficus é uma das causas apoiadas pelo grupo de pesquisa
LEO FONTES / O TEMPO
Resistência. Movimento Fica Ficus é uma das causas apoiadas pelo grupo de pesquisa

Em atividade desde 2011 junto à Faculdade de Arquitetura e Design da UFMG, o grupo Indisciplinar tem apresentado bons exemplos de pesquisas que ultrapassam as torres de marfim da academia e ganham relevância justamente por imbricarem-se em variadas questões políticas, sociais, culturais e urbanísticas que diariamente se impõem à rotina da cidade. Além da plataforma Cultura BH, que convida o cidadão a construir mapas urbanos segundo suas próprias experiências e critérios de relevância, várias outras iniciativas do grupo têm se dedicado ao empoderamento de movimentos e grupos sociais recorrentemente oprimidos pela força do capital sobre a cidade.  

“Desde o início, sempre nos interessou essa aproximação com o ativismo, os movimentos sociais e uma série de pautas sociais e urbanas muito pertinentes aos nossos tempos. Nos interessa, nesse sentido, tanto pesquisar como o neoliberalismo tem atuado sobre a cidade quanto pensar em saídas para essa situação, ativando outras formas de produção do comum no espaço urbano e transgredindo, sempre que possível, as ações do Estado-capital”, sintetiza a professora e pesquisadora Natacha Rena, também coordenadora do grupo.

Por conta disso, explica ela, o Indisciplinar vem investindo na apropriação e no desenvolvimento de metodologias que recusam a tradicional separação entre sujeito e objeto de pesquisa. “Adotamos uma perspectiva que recusa o lugar de neutralidade muitas vezes associado ao pesquisador, substituindo-o por um sujeito engajado que se move por uma aposta política – e não mais por uma hipótese de pesquisa”, compara.

É nesse sentido que a plataforma Cultura BH, eventualmente entendida como “apenas” uma agenda cultural dinâmica e colaborativa, ganha outros sentidos e outras potências. “É importante enxergar o território urbano como um lugar privilegiado de atuação do poder, onde não raro se dão disputas entre o capital e a sociedade civil. Temos utilizado a cartografia como um modo de mapear tanto os processos urbanos neo-liberais quanto os focos de resistência urbana”, explica a pesquisadora.

A partir dessa articulação entre universidade e movimentos sociais, defende Natacha, é possível qualificar e fortalecer o diálogo entre esses movimentos e o Estado. “Quanto mais nos aproximamos dos movimentos, mais entendemos juntos que as disputas pelo território não são fenômenos isolados, mas se referem a uma lógica de mercado que visa expropriar tudo aquilo que se apresenta como pedra no caminho do sonho neo-liberal. É esse o caso das vilas e favelas, do hip hop ou mesmo das árvores cujas raízes acabam ‘atrapalhando’ o desenvolvimento da cidade”.

“Pouco a pouco vamos produzindo uma grande crítica a essa visão do território como algo necessariamente produtivo ou competitivo e defendendo, no lugar disso, a ideia do território urbano como um espaço comum”, finaliza.

Programe-se

Nos dias 2 e 3 de fevereiro, o Indisciplinar co-realiza o seminário Tecnopolíticas, Democracia e Urbanismo Tático, que se volta à aplicação de tecnologias digitais à produção do espaço urbano.

O evento conta ainda com participação do coletivo Micrópolis e do italiano Domenico di Sena.

Saiba mais Na fanpage do encontro no Facebook.

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