Desarme

iG Minas Gerais |

acir galvao
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Foi por coincidência que visitei a exposição “Ciclo – Criar com o que Temos”, no CCBB, no dia do atentado ao jornal satírico francês “Charlie Hebdo”. Antes de entrar, matei a fome com um sanduíche, olhando a praça da Liberdade no fim de tarde. A paz dominava entre os caminhantes, corredores e famílias que tiravam fotos. A ponte entre o atentado e a exposição que termina hoje (se você não foi, deixe a preguiça e desfrute) está no terceiro andar, na obra “Desarme”, do artista mexicano Pedro Reyes. Ele conseguiu que o governo do México liberasse 6.700 armas confiscadas de narcotraficantes para, com elas, criar oito instrumentos musicais mecanizados. Com a ajuda de músicos e programadores, quando tocam juntas as esculturas musicais de armas formam como que uma orquestra interpretando uma sinfonia própria. O curioso daquele tarde foi que houve um problema na programação que não estava tocando a “sinfonia” a cada 20 minutos em média, como me explicou o guia. Ele parecia um pouco aflito e procurava um colega que tivesse um rádio para saber se o técnico havia sido localizado para fazer o reparo nos instrumentos. Voltou mais aliviado para informar que o socorro estava a caminho. Nesse meio tempo, chegou uma outra guia que comentava aos visitantes como era maravilhoso quando todos os instrumentos tocavam juntos. Passados cerca de 15 minutos, o técnico já mexia na programação dos equipamentos e aos poucos a “sinfonia” entrou em ação. O público que estava naquela hora no CCBB foi se aglomerando e se extasiando com a música. Muitos chegavam como que não acreditando que aquelas armas ou pedaços delas, engrenagens mortais, tocavam aquela composição. Quando acabou, as pessoas, rindo, não tiveram dúvidas, aplaudiram. E, num canto, vi os dois guias também sorrindo, com o ar de missão cumprida por terem conseguindo trazer o técnico e oferecer aos visitantes aquilo que estão vivenciando diariamente. O relato mostra um quê de entretenimento na obra, mas ela vai muito além disso, inserida no conceito da exposição inspirada no ready-made de Marcel Duchamp, em que os objetos utilizados nos trabalhos ganham uma outra dimensão e novos significados. No caso de Pedro Reyes, como sintetiza o texto de apresentação de “Desarme”, o instinto de morte se transforma em criação, vida, liberdade. As motivações para o atentado e para o narcotráfico são diferentes, mas ambos trazem a marca da violência. As esculturais musicais clamam pelo desarmamento. E há ainda muitas outras coisas interessantes para se ver nessa exposição.

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