‘Maioria dos radicais islâmicos não é movida por ódio ou medo’

Lígia Gonçalves Silva Mestre em psicologia das organizações e do trabalho Universidade de Coimbra, Portugal

iG Minas Gerais | Raquel Sodré |

Arquivo pessoal
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Nenhuma organização sobrevive sem os recursos humanos. Nem os grupos terroristas – ou principalmente eles. Com o objetivo de investigar como é feito o processo de recrutamento nessas estruturas, a pesquisadora realizou sua tese de mestrado. Abaixo, ela explica como os jovens são atraídos para o jihad.

 

Qual é o elemento-chave que faz com que jovens ocidentais abracem o terrorismo?

Penso que a chave está na comunicação, nomeadamente na forma como essas organizações difundem sua mensagem. Com o crescimento da internet, a disponibilização de vídeos tem sido o meio mais utilizado para atrair novos membros, aproximando os jovens ocidentais das organizações e funcionando como um forte catalisador dos processos de radicalização. Também as redes sociais funcionam como um elo privilegiado, em que grupos virtuais de indivíduos com sentimentos e conflitos idênticos podem encontrar-se, formar relacionamentos, discutir e partilhar mensagens.

O que faz com que o discurso dos grupos terroristas seja sedutor para os jovens?

Os radicais islâmicos acreditam que serão recompensados pelas suas ações. Exemplos disso são a crença no paraíso ou o fato de os mártires serem vistos como heróis. Um mártir no mundo islâmico é uma “celebridade”, o que atrai principalmente indivíduos provenientes de meios em que as oportunidades de prosperar são diminutas. Além dessas “recompensas”, este é, muitas vezes, um meio para alcançar melhorias em nível social.

Há um perfil de quem os grupos terroristas preferem recrutar?

Em termos sociodemográficos, penso que será muito difícil traçar um perfil, uma vez que essas pessoas provêm dos mais distintos meios sociais, religiosos e educacionais. Contudo, pode-se dizer que haverá uma maior tendência em locais onde as pessoas se sintam mais insatisfeitas. Além da aquisição de recompensas e do reconhecimento social, também a injustiça percebida e a necessidade de identificação e pertença funcionam como fortes motivações.

Quais são os principais valores propagados na cultura organizacional dos grupos terroristas? Penso que o principal valor, e aquele que está na base de uma organização terrorista sólida, é a lealdade ao grupo. Uma vez pertencente ao grupo, a identidade pessoal é abandonada, e é adotada a identidade da organização, fazendo com que as ações sejam sempre realizadas para o bem da organização, em detrimento do bem individual.

Como é esse processo de deixar a própria individualidade de lado e passar a adotar a mentalidade da organização?

Um grupo tem uma identidade própria, uma mente grupal que exerce influência sobre seus membros. Assim, um indivíduo pode sofrer uma profunda alteração de identidade quando influenciado pela mente grupal, abandonar suas características e assumir a identidade do grupo. A mente grupal tem o poder de fortalecer o conjunto e levá-lo a grandes realizações. Um exemplo positivo desse fenômeno são as vitórias surpreendentes de equipes desportivas.

Qual descoberta te surpreendeu mais durante suas pesquisas?

Acho que uma das coisas que mais me surpreenderam foi perceber que, ao contrário do que eu pensava, a maioria dos radicais islâmicos envolvidos em situações terroristas é movida não pelo ódio ou pelo medo, mas sim por questões grupais, como a obediência à autoridade, a estima dos seus companheiros, a defesa do grupo e o desejo de contribuir para o sucesso deste. Estudos realizados sobre a coesão de grupo mostram que as relações entre os combatentes desse gênero de organizações são, muitas vezes, mais fortes do que as estabelecidas entre um casal.

Há um aumento no número de mulheres recrutadas pelo jihad. Podemos ler isso como um sinal de que os grupos terroristas estão se especializando?

Mais do que se especializar, penso que é um sinal de que estão se adaptando e adotando novas técnicas, como forma de responder aos elevados níveis de pressão externa. Uma organização terrorista vive muito da sua imagem e propaganda, e a imagem de uma mulher terrorista produz grande impacto nos meios de comunicação, servindo, assim, de propaganda poderosa para difundir a mensagem da organização. Além disso, em termos operacionais, o fato de serem membros menos comuns do que os homens, aliado ao estereótipo feminino não violento, permite-lhes realizar ataques furtivos com maior sucesso, agindo como elemento-surpresa e surtindo um efeito psicológico ainda maior.

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