Terrorismo está mais difícil de ser identificado e combatido

Estrutura mais pulverizada e sem líderes absolutos dificulta conter os atentados

iG Minas Gerais | Raquel Sodré |

Recrutamento no Ocidente. Um cidadão francês foi responsável pelo ataque terrorista ao mercado kosher em Paris
THOMAS SAMSON
Recrutamento no Ocidente. Um cidadão francês foi responsável pelo ataque terrorista ao mercado kosher em Paris

Um inimigo que não tem cara, nem endereço, que não concorda com a sua visão de mundo e deseja, à força, impor a própria filosofia de vida para todos. É esse o perfil do novo terrorismo, cuja ação mais recente, no periódico francês “Charlie Hebdo”, ainda está reverberando por todo o mundo.  

Se, nas últimas décadas do século XX, o terrorismo tinha um caráter nacional e ideológico, vinculado a posicionamentos políticos, e era ligado a movimentos separatistas nacionais – como ETA, na Espanha, ou IRA, na Irlanda, por exemplo –, agora encontramos um cenário bem diferente. “No pós-Guerra Fria, essas ações terroristas perdem importância, e um novo terrorismo, internacional, sem fronteiras, religioso, cujo objetivo é universal e está além da redenção, tornou-se preponderante”, explica o cientista político Christian Lohbauer, membro do Grupo de Análise de Conjuntura Internacional (Gacint) da Universidade de São Paulo (USP).

O objetivo dessas ações é, tão somente, impor o regime do medo para, por meio dele, conquistar o poder. No contexto atual, a grande missão do terrorismo – intimamente ligado ao extremismo religioso – é pôr um fim à cultura ocidental. Na prática, por meio dessas ações os grupos já conseguiram construir um califado nos territórios da Síria e do Iraque – o Estado Islâmico.

“Há estudos que apontam que o objetivo de todos os movimentos baseados na Al Qaeda é derrubar e ocupar o poder na Arábia Saudita e tornar-se soberano de 20% do petróleo mundial”, revela o pesquisador.

Perfil. O novo terrorista foge aos estereótipos. Os grupos têm, cada vez mais, atraído membros em países ocidentais. Essas pessoas, muitas vezes, levam vidas normais, acima de qualquer suspeita, até que cometem um ataque.

“Em termos sociodemográficos, penso que será muito difícil traçar um perfil, uma vez que estas pessoas provêm dos mais distintos meios sociais, religiosos e educacionais. Contudo, pode-se dizer que haverá uma maior tendência em locais onde as pessoas se sintam mais insatisfeitas”, opina a psicóloga portuguesa Lígia Gonçalves Silva. Em seu mestrado, pela Universidade de Coimbra, ela pesquisou o sistema de recrutamento dos grupos terroristas.

Desafios. Por suas características, esse tipo de terrorismo é muito mais difícil de ser combatido. “Ele trabalha com grupos pequenos, sem estruturas fixas ou um líder absoluto. Se adaptam muito rapidamente a novas circunstâncias e não precisam de lugares centrais para que possam agir”, pontua Kai Enno Lehmann, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (IRI-USP).

Essa estrutura dribla o modelo de combate que a comunidade internacional está habituada a usar. “A política do Ocidente nesse sentido busca algo, para mim, inatingível: a segurança total. Faz isso por meio de tentativas de criar rótulos para que possamos classificar grupos e, depois, eliminá-los. Isso não é possível”, afirma Lehmann.

“Seria impossível monitorar todos aqueles que, em algum momento, já exibiram comportamento suspeito – seja qual for a definição desse termo. Se eles (terroristas) atacam nossas liberdades, precisamos defendê-las – e não derrubá-las em nome de uma segurança total que não existe”, opina o professor.

Terror pode ser ascensão social para as mulheres Um dos capítulos da tese “O Processo de Recrutamento em Organizações Terroristas”, de Lígia Gonçalves Silva, trata da entrada de mulheres para ações em grupos terroristas. Dentre os motivos que as levam para essas organizações, Lígia destaca a possibilidade de melhorar de vida ao aderir ao terrorismo. “Muitas vezes, a motivação está relacionada com a questão feminista, havendo por parte das voluntárias o objetivo de melhorar sua posição no grupo em particular e na sociedade em geral”, escreve a autora. Para as organizações, a entrada das mulheres é bastante interessante. A imagem da mulher terrorista produz maior impacto nos meios de comunicação. Além disso, a autora defende que mulheres têm maior capacidade de mobilização e, por último, ainda são um elemento-surpresa nos ataques, pois são menos comuns que os homens.

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