A lamentável morte da relação médico-paciente

iG Minas Gerais |

Bombardeadas, nas últimas semanas, pela sanha Global de aumentar a audiência do “Fantástico”, as entidades médicas contra-atacam, condenando a generalização dos ataques contra os “mafiosos” médicos, que vendem suas almas ao diabo, simulando cirurgias desnecessárias, usando materiais superfaturados, de validade vencida e outras maldades grossas. Mas os médicos corretos, a maioria sem dúvida, já deveriam ter se mobilizado frente aos sinais sinistros que invadem a mídia constantemente, tais como venda de vagas em vestibulares de medicina, as péssimas condições de formação nos cursos médicos, a abertura indiscriminada de faculdades de quinta categoria, o sucateamento dos hospitais (fora os caríssimos e prestigiados centros que tratam presidentes e ricos, focados em fazer exames altamente complexos, assim como tratamentos e cirurgias, ajudados pelo BNDES e bancos públicos). Prestemos atenção ainda em eméritos professores de grandes faculdades, que alertam para o desinteresse, falta de formação cidadã, humanista, das novas gerações de médicos, que entram sem vocação ou dom, apenas por achar que “medicina dá dinheiro”. Os mestres alertam ainda sobre o alto grau de desistência no meio do curso, por incapacidade intelectual, descoberta de que não é sua área de competência, entre outras. Um brilhante mestre da Escola Paulista de Medicina, num artigo para o jornal “Folha de S. Paulo”, chega a sugerir que haja testes pré–admissionais, para constatar se o vestibulando tem alguma vocação. Ou seguir o exemplo do Conselho de Medicina de São Paulo, que está fazendo um teste (tipo o da Ordem dos Advogados do Brasil, a OAB, para bacharéis de direito) em que os que não alcançam nota mínima, ficam proibidos de fazer residência médica, embora sejam jogados no mercado como generalistas. No último ano, 60% foi reprovado! Imagine nos outros estados... Mas serei mais humilde. Dedicarei grande parte desta coluna para relembrar aos colegas e ao público em geral que nada é mais sagrado, mais essencial na pratica médica, do que o momento empático e fundamental no atendimento que é a relação médico-paciente! O exercício da arte diagnóstica, da busca da cura, tem seu auge quando um ser que sofre – seja física, psíquica, social ou espiritualmente – senta em frente a um ajudador, no caso, um médico. Ouvir com atenção suas queixas, auxiliá-lo a caracterizar suas dores e dúvidas, acolhê-lo, estabelecendo uma energia de empatia e compreensão, como quem troca de lado com o outro para entendê-lo e ajudá-lo. Ter a habilidade de esmiuçar seus sintomas e perceber os sinais da disfunção que acometem o paciente é o mínimo que se espera de um médico de alma, com o dom da cura, ou ao menos de minorar o sofrimento de quem a ele acorre. Como diziam meus mestres da UFMG: “Em medicina, a clínica é fundamental, exames são complementares”. Ou ainda “um dia haverá uma supermáquina diagnóstica, em que o paciente, ao dar um passo, escaneará todo o corpo, células, funções e emitirá um relatório completo. Talvez, neste dia, ressurja o verdadeiro médico, pois o importante não é o relatório emitido, e sim como o paciente pode viver dignamente e com qualidade, a partir disso”. Quem dera se as novas gerações entendessem que não é possível examinar, diagnosticar, compreender o seu paciente se a consulta não durar ao menos 30-40 minutos. Quanto mais breve uma consulta, mais exames se pede, menos diagnóstico existirá e nenhum tratamento passará de paliativo, desnecessário, ou pior, com graves erros médicos. Em algumas palestras, chego a sugerir que o médico veja no paciente à sua frente um filho, mãe, esposa. Como gostaria que um ente querido fosse atendido ou tratado por outro colega, por mais humilde que seja o cliente? Pois trate desta formas sempre e sempre seu próximo paciente. Ou ainda, será que um médico gostaria de ser cliente de si mesmo? Não tenho dúvida que o futuro dividirá a medicina em médicos (que escutam, falam e acolhem) e técnicos em medicina, impessoais, racionais, cirúrgicos nas suas intervenções e que se apoiam em exames mais que na relação médico-paciente. Na minha experiência, 1/3 dos médicos é vocacionado, talentoso, humano. Outro 1/3 gostaria muito de sê-lo e se esforçam, mas não têm o dom e alma médica. Quanto ao outro 1/3, haja Fantástico, jornais nacionais e Datenas!

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