Um campo em mutação

Organizadora do livro “Futuros Possíveis”, Giselle Beiguelman reflete sobre o destino de obras e arquivos digitais

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

Obras.A imagem  reproduz um dos trabalhos mais recentes de Giselle Beiguelman e lida com a noção da estética do ruído e da corrupção do código.
GISELLE BEIGUELMAN/REPRODUÇÃO
Obras.A imagem reproduz um dos trabalhos mais recentes de Giselle Beiguelman e lida com a noção da estética do ruído e da corrupção do código.

Em 1999, a artista e pesquisadora Giselle Beiguelman criou um site concebido como um ensaio hipertextual e visual sobre literatura, leitura e mídia na Internet, e o batizou de “O Livro Depois do Livro”. A obra, premiada, inspirou uma publicação impressa de mesmo nome em 2003. Mas, se no papel e na versão em PDF, o conteúdo permanece disponível sem problemas, no suporte digital, foi exigido à autora uma série de readequações para que continuasse acessível.

“Há pouco tempo, eu tive que atualizar vários dos scripts do site porque hoje há uma série de protocolos de segurança que pedem isso. A internet atual é muito mais paranoica do que antes”, pontua a artista e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.

Giselle conta que tem recebido diversos alertas de segurança, e esses, ao seu ver, parecem atribuir ao trabalho ameaça semelhante à de “uma bomba ou de um atentado terrorista”. “O site tem 15 anos, pode ser considerado histórico. Mas, como os programas que utiliza são caseiros, feitos por artistas individuais, nada chancelado por corporações, eles precisam de autorizações para serem rodados. Isso antes era impensável”, diz.

O caso, para Beiguelman, ilustra um dos assuntos discutidos no título “Futuros Possíveis: Arte, Museus e Arquivos Digitais”, que ela organizou junto a Ana Gonçalves Magalhães, curadora do Museu de Arte Contemporânea da USP. Lançada recentemente, a publicação reúne uma série de artigos de autores brasileiros e de outros países, que refletem, justamente, sobre aspectos relacionadas à preservação de obras de arte digital, à digitalização de acervos e às práticas menos convencionais de arquivamento.

“Com certeza esse é o livro que aborda com maior abrangência algumas das temáticas mais novas atualmente. Ele dialoga com questões de ordem política que estão aparecendo, além de contemplar pensamentos sobre a museologia e de trazer abordagens específicas a respeito da criação digital, do campo da overdose documental e da estética dos bancos de dados”, sintetiza a pesquisadora.

Depósito afetivo. Dentre as ideias apresentadas em “Futuros Possíveis”, ela ressalta o reconhecimento da memória como tema de alcance corporativo. Isso, ao seu ver, reforça a necessidade de considerações sobre procedimentos que ainda carecem de regulamentação e de melhor entendimento a partir de um código de ética. “Nós estamos depositando nossas memórias afetivas, pessoais e profissionais em espaços como Google, Facebook e Yahoo!, que podem desaparecer a qualquer minuto, como aconteceu com o Geocities. Após ser comprado pela Yahoo!, o sítio sumiu, levando embora boa parte da história e da internet 1.0”, frisa.

Por outro lado, ela reforça que iniciativas pessoais precisam de atenção, como as diversas listas e arquivos de documentos que se avolumam na internet. “Há a figura de um contracolecionador, que é o arquivista pessoal, que sai colecionando e organizando coisas por si mesmo e cria uma outra esfera de saber e de improvisações”, pontua.

Se é possível perceber para onde caminham alguns movimentos no cenário da cultura digital por meio dessas ações, Beiguelman aponta que o modo como atuam os gamers sinaliza o que deve servir de referência para os artistas. A necessidade de atualização constante de algum projeto, de acordo com ela, coloca em evidência o artifício da emulação, mais conhecido pelos jogadores.

“Há uma série de metodologias que estão sendo testadas, mas uma que se vem praticando muito é a incorporação de um processo já desenvolvido, o que é muito comum entre os jogadores. Isso significa emular, não mimetizar. Chega um momento em que você vai emulando tanto que acaba fazendo um outro equipamento”, diz.

Ao refletir sobre o impacto disso na produção artística, ela reconhece que essa condição leva ao status de uma obra inacabada, sempre passível de ser reconstruída. “A arte produzida nesse ambiente é uma arte em eterna mutação. À medida que é refeita, vai se transformando em outras coisas e é importante perceber que isso faz parte do próprio processo criativo. Paradoxalmente, ainda há uma contaminação muito grande no circuito das artes visuais e há falsas crenças na permanência de uma obra que não precisam mais existir”, conclui a artista.

Saiba mais

Futuros Possíveis: Arte, Museus e Arquivos Digitais” (ed. da USP, 648 págs.) saiu em versão e-book (R$ 21; edição bilíngue: R$ 41) e impressa bilíngue (R$ 69).

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