‘O maestro não pode ser um burocrata’

Maestro Isaac Karabtchevsky compartilha suas percepções sobre aspectos da seara da música erudita

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

Trabalho. Atualmente, Isaac Karabtchevsky é o responsável pela programação artística do Theatro Municipal do Rio de Janeiro
Vânia Laranjeira
Trabalho. Atualmente, Isaac Karabtchevsky é o responsável pela programação artística do Theatro Municipal do Rio de Janeiro

Isaac Karabtchevsky tem uma vasta experiência na música clássica, 52 anos, para ser exato. Seja no Brasil, como maestro da Orquestra Sinfônica Brasileira ou na direção da Orquestra Petrobras Sinfônica; seja no restante do mundo, como diretor da Orchestre National des Pays de la Loire (França) ou responsável pela masterclasse anual para maestros, realizada na Itália.

Na conversa abaixo, ele compartilha suas opiniões sobre o segmento no Brasil afirmando a importância da musicalização das crianças, fala sobre a formação de público no país para concertos e sobre o papel de um maestro.

Entrevista Como o senhor avalia a aceitação da música clássica pelo público brasileiro? Creio que o Brasil está melhor na proliferação de orquestras, apesar de seu número ainda não ser compatível com as dimensões do país. Creio que o fato de a música ter sido retirada tão abruptamente do currículo escolar obriga as orquestras a impor uma programação que vise à criança, com projetos educativos de monta. Sem essa visão, não há futuro musical. A criança musicalizada é o fator que estimula a sensibilidade e é a porta de entrada para futuras vocações. Estamos ainda muito longe de ter a tradição na música clássica como existe em países como Itália e França?  Nesses países e na grande maioria dos países europeus, a música não é matéria estranha, ela está presente desde a mais tenra idade. Lembro-me de Viena: filas para assistir aos ensaios de minha orquestra, conversas sobre as composições que estávamos interpretando, tudo era parte de um processo de aprimoramento que viria a formar, senão músicos profissionais, o público atento e receptivo do futuro. Você acompanha a produção musical de Belo Horizonte? Nos últimos anos a Orquestra Filarmônica vem movimentando muito esse cenário. Conhece o trabalho deles? Sim, conheço. No concerto em que fui convidado para dirigi-la, pude testemunhar seu nível de desenvolvimento e a qualidade de seus músicos. Soube que recentemente foi concluído seu teatro. Tal fato, por si só, representa algo importantíssimo ao seu aprimoramento artístico, já que uma sala de concertos, quando acoplada a uma orquestra, favorece a interação e o crescimento musical, como aconteceu com a Osesp e Sala São Paulo. Em uma entrevista dada a um jornal, você explicou a função de um maestro dizendo que a “mão esquerda é a mão do coração, da improvisação, e a direita é a racional”. Acha que muitas pessoas desconhecem a função de um maestro, mas respeitam a posição por entender que ele está no comando? De fato, há que se respeitar a função de cada mão, sob o risco de se tornar um batedor de compasso… A mão direita sinaliza, na maior parte do tempo, a ordem e a disciplina, deixando espaço livre à mão esquerda, que tem a função de exprimir o conteúdo musical. Mas esses preceitos não são, de forma alguma, válidos a todo momento – há ocasiões em que os braços caminham juntos e maestros que trocam uma mão pela outra. É importante ressaltar que cabe ao maestro interpretar e transmitir música, e não ser um mero burocrata a serviço da precisão. É isso o que procuro transmitir aos meus alunos.

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