Um virtuoso maestro

Com trajetória de prestígio e reconhecimento, Isaac Karabtchevsky celebra 80 anos assumindo a presidência da Fundação Theatro Municipal do Rio

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

Alunos do Madrigal Renascentista de Belo Horizonte, o qual foi dirigido por Karabtchevsky
Acervo pessoal
Alunos do Madrigal Renascentista de Belo Horizonte, o qual foi dirigido por Karabtchevsky

Se fosse possível definir um artista apenas citando seus méritos e prêmios, a lista referente à trajetória profissional de Isaac Karabtchevsky ocuparia boa parte deste espaço. Com 80 anos recém-completados, o maestro já se apresentou nos principais teatros do mundo, foi considerado pelo jornal “The Guardian” como “um dos ícones vivos do Brasil” e comandou a Orquestra Sinfônica Brasileira por 26 anos, para citar apenas algumas conquistas que fazem dele uma referência para a música clássica em todo o mundo. Na semana passada, tornou-se presidente da Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

Antes de alcançar seu lugar no olimpo, porém, Karabtchevsky estudou muito na juventude. Durante seu percurso, sempre contou com o apoio da família, principalmente da mãe, cantora de ópera. “A origem de uma vocação é imponderável, não há regras que determinem a essência do talento ou o desabrochar daqueles elementos que são responsáveis pela carreira. Creio, sim, que a vida familiar tem forte influência, apesar de não ser o fator decisivo – uma criança, como foi no meu caso, que ouve sua mãe entoar melodias e esmerar-se pela afinação e pelo sentimento, recebe dela uma força vital que certamente poderá influir no seu futuro como músico”, opina o maestro.

Profissionalmente, seu primeiro emprego como regente foi no Madrigal Renascentista de Belo Horizonte. Karabtchevsky conta que tinha apenas 20 anos quando encontrou o grupo, cujo principal objetivo à época era o de fazer música. “Foi tão marcante o surgimento (do Madrigal) que o presidente Juscelino o convidou para a inauguração de Brasília”, relembra.

Na capital mineira, deu aula para muitas pessoas e também fez amigos. Ana Marina Tymburiba se encaixou nas duas categorias, e se recorda de várias apresentações com o maestro, mas destaca a que fizeram, em 1962, ao lado de Chico Buarque. “Karabtchevsky era um cara novo, talentosíssimo. O Madrigal não existiria sem ele. Foi ele que acrescentou uma tonalidade até então inexistente, afinal, consegue arrancar música até de um bloco de cimento”, brinca.

Foram nove anos à frente do grupo mineiro, com um hiato nesse período, quando foi estudar regência na Alemanha, em 1958. Depois disso, a carreira nacional ganharia mais relevo com o convite para se tornar maestro da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB), posição na qual ficaria por 26 anos. “Desenvolvi grande parte do meu repertório sinfônico com a OSB, o que foi valioso quando estive como diretor artístico da Tonskunstler, de Viena (1988-1994), como diretor musical no Teatro la Fenice (1995-2001) e outros trabalhos”, comenta o maestro.

Nesse período, ficou conhecido também por ser um dos responsáveis pelo projeto Aquarius, que levou 100 mil pessoas ao parque do Flamengo no dia 30 de abril de 1972 para ouvir música clássica. “Vi que a atividade de um maestro não poderia se confinar às paredes de um teatro, mas deveria ir ao encontro das massas, procurando vincular a música a camadas da população que não tinham o privilégio de ouvi-la”, comenta. Ao todo foram realizados mais de 15 espetáculos por ano, tornando-se um dos projetos de referência de popularização da música erudita no Brasil.

Depois disso, seu trabalho se tornaria cada vez mais reconhecido. Tóquio, Nova York, Buenos Aires, Londres foram algumas das cidades onde passou a se apresentar e a trabalhar. Entre as dezenas de recitais, um, porém, tem destaque em sua memória. “Acho que o momento em que fiquei mais emocionado foi quando regi na basílica de San Marco, em Veneza, com a Orquestra do Teatro la Fenice. Estávamos com o grupo e o coro numa turnê, quando vimos pela TV que o nosso teatro, joia do século XVIII, tinha pegado fogo. De volta a Veneza, demos um concerto. Neste dia, o patriarca de Veneza, a plateia, a orquestra, todos chorávamos no fim do concerto”.

Desde 2011, Karabtchevsky dirige a Sinfônica de Heliópolis. Um trabalho que, segundo ele, é gratificante por permitir a oportunidade de acompanhar o desenvolvimento de jovens músicos. “É animador ver como despontam talentos”, afirma. Por ano, o grupo administrado pelo Instituto Baccarelli faz de oito a dez apresentações na Sala São Paulo. Com essa trajetória, Karabtchevsky acredita, porém, que ainda há o que aprender.

“Parodiando (o poeta): ‘sinto que nada sei’. A frase foi repetida por muitos e acompanha o ser humano em todos os estágios da vida. Sei também que aquilo que consegui realizar em todos esses anos atribuo a um fator fundamental: o encontro com minha mulher, Maria Helena. Ela me dá, ao lado de nossas filhas, a paz de espírito para estudar, coisa que sempre foi, desde meus tempos de estudante, uma verdadeira obsessão”.

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