O ser humano por trás do mito

iG Minas Gerais | Jessical Almeida |

De acordo com Rodrigo Jerônimo, o Grupo dos Dez usa poesia e música para fazer denúncia sobre nosso tempo
FLÁVIO CHARCHAR/DIVULGAÇÃO
De acordo com Rodrigo Jerônimo, o Grupo dos Dez usa poesia e música para fazer denúncia sobre nosso tempo

“Mulata do Balacochê”, “Caranguejo da Praia das Virtudes”, “Jamacy, a Rainha da Floresta”. Essas foram algumas das formas pelas quais o malandro-travesti Madame Satã foi chamado, antes de receber seu apelido mais emblemático e duradouro. A alcunha tem origem relacionada à de uma das formas mais comuns de se referir – pejorativamente – a homens homossexuais: o bloco carioca “Caçadores de Veados”, que desfilava nos Carnavais da década de 1930, majoritariamente composto por homens gays travestidos.

Por conta da roupa de morcego cheia de adereços dourados com que desfilou no bloco, em 1938, foi comparado por um policial à personagem do filme “Madam Satan” (1930), de Cecil B. DeMille. Mesmo sem nunca ter visto o filme, incorporou o apelido, que parecia abarcar com precisão paradoxos de sua personalidade como feminino e masculino, elegância e indecência, delicadeza e brutalidade. Por esse nome foi eternizada uma das figuras mais emblemáticas do boêmio bairro da Lapa, no Rio de Janeiro.   No entanto, João Francisco dos Santos, seu nome de batismo, é conhecido por poucos. Assim como sua história para além do folclore, os elementos que o formaram, as adversidades que enfrentou. E é com a proposta de desvelar o ser humano por trás da lenda que o espetáculo “Madame Satã”, do Grupo dos Dez, estreia na próxima sexta (23), na programação do Verão Arte Contemporânea.   “O Grupo dos Dez é formado predominantemente por atores negros e tem não só a intenção de se fortalecer como um grupo teatral negro, como de tentar levantar espetáculos a partir de figuras negras controversas, famosas ou anônimas, e retrabalhar suas histórias, resgatando o que está esquecido”, explica João das Neves, que assina a direção geral da peça, escolhida pelo projeto Oficinão 2014, do Galpão Cine Horto.   Ao longo da pesquisa, o grupo foi percebendo que Satã relatava, lá nas décadas de 1920 e 1930, coisas que acontecem até hoje no Brasil com pessoas dos grupos minoritários a que ele pertencia: negros, pobres, homossexuais, nordestinos, população carcerária.   “Foi aí que decidimos amarrar referências contemporâneas à dramaturgia, como o caso do debate presidencial em que o candidato Levy Fidélix disse ser contra a união entre pessoas do mesmo sexo porque ‘aparelho excretor não reproduz’”, diz Rodrigo Jerônimo, que codirige e co-assina a dramaturgia, ao lado de Marcos Fábio de Faria, além de integrar o elenco.    “Apesar das mudanças do tempo de Madame Satã pra cá, há muita coisa ainda precisa avançar. O projeto de criminalização da homofobia acabou de ser engavetado pelo Senado e, embora o racismo seja crime, morrem 83 negros por dia no Brasil”, completa.    Dando continuidade a um trabalho realizado desde 2008, o grupo – que se formou em 2005, a partir de uma oficina dada por João das Neves, ao lado da cantora Titane, sua companheira – a montagem busca contribuir para o desenvolvimento de musicais tipicamente brasileiros. “A produção brasileira, mesmo que com músicas em português, é muito influenciada pela Broadway. A estética passa muito longe do que é o corpo, a forma de cantar brasileira. Então, partimos da capoeira e das guias de umbanda<ET>para construir a corporeidade do espetáculo”, explica Jerônimo. Além disso, a trilha sonora original foi composta pelos próprios atores, que também são músicos, sob a direção de Bia Nogueira.   Teatro Opinião Aos 80 anos de idade e 50 de carreira, João das Neves e o acervo que detém dos tempos de Teatro Opinião vão ser tema de uma mostra em São Paulo. “O projeto está sendo organizado e a exposição deve abrir em setembro. Também estou escrevendo um livro sobre o grupo, que ainda não tem data para sair”, conta.    Madame Satã Verão Arte Contemporânea Galpão Cine Horto (r. Pitangui, 3.613, Horto, 3481-5580). De 23 de janeiro (sexta) a 8 de fevereiro (domingo). De quinta a sábado, às 21h; domingo, às 19h. R$ 16 (inteira)

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