Quebra-cabeça bem montado

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

“Livre”: Filme é baseado na história real de Cheryl Strayed e tem Reese Whiterspoon como protagonista
Fox Filmes/Divulgacao
“Livre”: Filme é baseado na história real de Cheryl Strayed e tem Reese Whiterspoon como protagonista

Os momentos, as frases, as relações que vão deixar marcas permanentes na sua vida não são imediatamente perceptíveis. Aqueles que parecem importantes na hora em que acontecem são rapidamente esquecidos, raramente duram. Já os que realmente fazem diferença só são compreendidos meses ou anos mais tarde, quando você precisa deles ou está maduro o bastante para entender seu verdadeiro significado.

Esse é o princípio ativo de “Livre”, adaptação do livro autobiográfico de Cheryl Strayed (vivida por Reese Witherspoon, que disputa o Oscar de melhor atriz), em cartaz na cidade. Após a morte precoce da mãe, Bobbi (Laura Dern, no páreo pelo Oscar de atriz coadjuvante), vítima de câncer, Cheryl se entregou a uma espiral de drogas e promiscuidade. Para se purgar disso e “se colocar no caminho da beleza”, como pregava a mãe, ela decide caminhar pelos 4.260 km da Pacific Crest Trail – uma trilha na costa oeste dos EUA que vai da fronteira do país com o México até o Canadá.

Sim, a produção é mais um exemplar dos “longas de jornada”, em que o percurso é mais importante que o destino – já realizada com maior impacto emocional e um roteiro menos formulaico no ótimo “Na Natureza Selvagem”. E tem metáforas visuais nada sutis, como o enorme mochilão, apelidado de “monstro”, com que Cheryl começa a viagem – uma bagagem da qual ela tem que ir se desprendendo e esvaziando para encontrar sua paz de espírito. Pode não ser o simbolismo mais sofisticado da paróquia, mas é coerente e cumpre seu papel – assim como a pieguice irresistível do encontro com o garotinho no final.

Mas é a forma como o diretor Jean-Marc Vallée (“Clube de Compras Dallas”) monta essa história que dá a ela seu sabor especial. “Livre” já começa com Cheryl iniciando a trilha, e o cineasta revela o passado da protagonista por meio de memórias que uma música (a linda “El Condor Pasa”, de Simon & Garfunkel, vai grudar na seu ouvido depois do filme), uma frase ou um cheiro despertam nela. Além de usar o recurso do flashback de forma orgânica e eficiente, esse dispositivo mnemônico dá um sentido novo a esses momentos, deixando claro para o espectador por que Cheryl precisou caminhar 4.260 km.

Força

Mais que uma simples jornada de autodescoberta, a trilha representou o momento em que a protagonista enxergou a força e o espírito que nunca havia reconhecido na mãe e, ao mesmo tempo, provou a si mesma estar à altura dessa herança. Nesse sentido. “Livre” é um longa muito feminista, sobre a ligação entre duas gerações de mulheres se descobrindo e se apoiando mesmo sem saber como.

O resultado é enfraquecido um pouco pelo fato de que, mesmo sem usar maquiagem, a pele de Witherspoon no fim do filme, após três meses caminhando e acampando no deserto e na chuva, está melhor que a sua ou a minha.

É possível imaginar 20 outros nomes melhores para o papel, mas a atriz não compromete, destacando-se em momentos como a alegórica cena no início em que Cheryl não consegue se levantar com seu mochilão/bagagem. E Dern consegue transmitir o carisma do otimismo de Bobbi, mesmo com pouco tempo em cena.

Mas os méritos de “Livre” pertencem mesmo a Vallée. Mais do que a mera beleza da jornada exterior de Cheryl, ele é capaz de conduzir o espectador pela complexidade de sua jornada interior por meio de uma das montagens e realização mais seguras do ano.

E se isso parece autoajuda demais para o seu gosto, compensa muito o fato de que o roteiro ficou a cargo do escritor Nick Hornby (“Alta Fidelidade”). O talento do inglês para escrever diálogos com o ritmo da banalidade cotidiana, mas que funcionam em múltiplos níveis de leitura caem como uma luva na proposta do longa de que, assim como na vida, não existe um “grande” momento – a potência está na justaposição de várias pequenas cenas e no significado maior que surge desse mosaico.  

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