Listas espalhadas pelo WhatsApp causam mal estar em Santa Bárbara

Promotora irá pedir quebra de sigilo do aplicativo para comprovar a identidade dos suspeitos; pessoas da cidade eram denominadas com apelidos ofensivos e chulos

iG Minas Gerais | JULIANA BAETA |

A população de Santa Bárbara, na região Central de Minas Gerais, está em estado de alerta desde que listas com injúrias e calúnias contra moradores da cidade começaram a circular no WhatsApp, em novembro passado. Com nomes e sobrenomes, os "adjetivos" utilizados são ofensivos, chulos e, na maioria das vezes, dizem respeito a supostas orientação e comportamento sexuais das vítimas.

Em uma cidade com menos de 30 mil habitantes - incluindo as áreas urbanas e rurais -, o crime causou um verdadeiro mal estar. Já houve o caso de uma pessoa citada na lista que perdeu o emprego por isso. Além disso, os relatos de pessoas que entraram em depressão e sequer saem de casa são muitos, segundo a promotora do Ministério Público na comarca de Santa Bárbara, Carla Rodrigues Fazuoli.

"Quando eu fiquei sabendo, em meio ao recesso de fim de ano, já eram 10 listas que mancham a imagem de adolescentes e adultos principalmente de Santa Bárbara, mas também de Barão de Cocais. São cerca de 500 pessoas atingidas, e praticamente todo mundo da cidade compartilhou a lista. Mesmo quem não tem WhatsApp já está sabendo. Os termos utilizados, as denominações, são pesadíssimos. Em alguns casos, não apenas o nome e sobrenome da pessoa é citado, mas também de quem ela é filha, onde trabalhar, o apelido, etc", conta Fazuoli.

Além de ter atingido a auto-estima e a chamada "honra" de muitos moradores da cidade, a promotora relata outro problema. Muitas pessoas que foram citadas procuram por conta própria os responsáveis pela criação dessas listas, e a "justiça com as próprias mãos" já é uma ameaça real. "Algumas vítimas já estão começando a ameaçar quem eles acham que criou a lista, isso, sem ter uma investigação ainda. Tem gente com medo de sair de casa por causa dessas ameaças", explica. "Aqui em Santa Bárbara, todo mundo é meio 'parentado´, isso está causando muita comoção", complementa.

Há listas de todos os temas: uma só sobre as supostas mulheres 'promíscuas' da cidade, outra sobre os supostos homossexuais e outra só sobre os homens, por exemplo. Mas a 11ª lista, que já estava anunciada para sair este mês, poderia causar ainda mais danos. "Felizmente a gente conseguiu intimidar essas pessoas e impedir que essa lista saísse, porque seria a 'dos cornos de Santa Bárbara'. Ia ter uma repercussão enorme porque aqui, grande parte da população ainda é muito conservadora. Isso com certeza poderia aumentar os casos de crimes enquadrados na lei Maria da Penha, os casos de homicídios, e até de suicídios. Mas desde que eu chamei a imprensa local, após ficar sabendo do caso, as listas pararam de ser compartilhadas", explica Fazuoli.

Suspeitos

Quem cria a lista comete um crime, mas quem compartilha também. Com base nessa determinação, a promotora Carla Fazuoli conseguiu chegar aos possíveis responsáveis pela criação das listas, mas ainda falta pedir ao aplicativo para liberar as conversas e comprovar o envolvimento dos suspeitos. "Para encontrar os responsáveis eu chamei uma a uma as pessoas que eu sei que compartilharam a lista e as questionei sobre quem enviou essa lista para elas. Com isso, o cerco foi se fechando, e eu cheguei a pessoas que tenho praticamente certeza que foram as responsáveis. Preciso pedir essa quebra de sigilo ao aplicativo para provar", conta.

Enquanto isso, a promotora conta que irá colher depoimentos de pessoas próximas aos suspeitos, para ajudar a provar a autoria do crime.

Os responsáveis pelas listas poderão responder por crime de injúria. "A gente ainda está estudando o que fazer após a confirmação destes nomes, mas pode-se entrar com uma ação civil pública, uma ação penal privada, podemos pedir uma indenização por danos morais e também materiais, já que muitas pessoas lesadas estão tendo gastos com medicamento contra depressão, ou perdendo dias de trabalho ou de escola por vergonha de sair de casa. As pessoas que tiverem seus nomes na lista também podem fazer uma queixa-crime ou entrar com uma ação individual para cobrar essa indenização", explica Fazuoli.

Superação

O estudante Victor Sanches, de 16 anos, teve o nome citado na lista e, apesar de se dizer triste com o ocorrido, conta que aprendeu a lidar com situações assim. 

"Eu sofro bullyng desde a infância, principalmente na escola, porque sempre fui julgado pelas minhas preferências. Por exemplo, eu adoro animais e não curtia muito os esportes que os meninos costumam gostar, como futebol. Então a vida inteira eu fui julgado por isso e tive depressão por causa disso, fiz tratamento, fui no psicólogo. Hoje eu já sei lidar com esse tipo de situação. Mas eu fico triste porque muitas pessoas que gosto aparecem na lista. Cidade pequena é diferente de cidade grande onde cada um pode ir pro seu lado. Teve mãe de amiga minha, por exemplo, que está extremamente depressiva por causa disso. Quem fez isso é muito infantil, não tem caráter nenhum, tem necessidade de manchar a imagem das pessoas para se sentir bem. Quando aconteceu isso, e eu vi nomes de amigos meus nestas listas, eu cheguei a criar uma lista, mas falando bem dos meus amigos. Mas é claro que ela não foi divulgada como aconteceu com essas listas cheia de barbaridades", conta.   

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